Liderar com Endurance

Marta Henriques Pereira CONSULTORA INTERNACIONAL DE PAZ E GOVERNAÇÃO

A liderança não se esgota no cargo que se ocupa; constrói-se no tempo, pela coerência entre pensamento, ação e serviço ao bem comum. Esse é o perfil da liderança de Marta Henriques Pereira. Para si, a vida não é um sprint, mas uma maratona que. exige trabalho continuado, visão estratégica, capacidade de adaptação e endurance.

 

Filha de uma mãe nascida em Moçambique e de um pai madeirense, cresce rodeada de narrativas de África que a ajudaram a compreender, desde cedo, a pluralidade cultural e a complexidade das sociedades humanas. Essa consciência moldou uma trajetória marcada pela escuta, pela adaptação e pela capacidade de construir pontes entre contextos, culturas e interesses diversos.

Jurista, consultora internacional e especialista em governança, segurança, negociação e coesão social, construiu uma carreira que cruza instituições internacionais, sector privado, academia e sociedade civil, sempre orientada por uma ética de serviço público e por uma visão humanista. “Trabalhar para criar ambientes onde todos possam prosperar com dignidade, segurança e equidade tornou-se a minha missão.” Esta não é apenas uma declaração de intenções: é o eixo estruturante de uma vida profissional exigente, coerente e comprometida à res pública.

Identidade Madeirense e Disciplina Interior

Foi na Madeira que cresceu e onde se formou uma identidade marcada pela abertura ao mundo, pela consciência atlântica e pela noção de que o isolamento geográfico pode, paradoxalmente, ser um poderoso estímulo à curiosidade global. A insularidade ensinou- lhe a olhar para fora sem perder o enraizamento, a valorizar o diálogo e a compreender a importância das interdependências.

Essa disciplina interior reflete-se também na forma como organiza a vida quotidiana. Marta acredita profundamente que mens sana in corpore sano não é um cliché, mas uma condição essencial de equilíbrio, clareza e resistência. Deita-se cedo — entre as 21h30 e as 22h — e acorda entre as 5h30 e as 6h. Café, ginásio, foco. É vegetariana desde os 17 anos, numa escolha consciente de saúde, coerência pessoal e sustentabilidade. Para si, cuidar do corpo é parte integrante da capacidade de decidir, liderar e manter lucidez em contextos de elevada pressão.

Coerência num percurso Não Linear

Formada em Direito pela Universidade Católica Portuguesa, no Porto, Marta iniciou a sua vida profissional na advocacia, na Madeira. Nunca teve, porém, um plano de carreira rígido. Foi movida pela curiosidade intelectual, pelo desejo de compreender sociedades diferentes e pela vontade de contribuir para contextos onde o impacto fosse real.

Esse impulso levou-a progressivamente para o plano internacional, primeiro na União Europeia e depois nas Nações Unidas, onde desenvolveu uma carreira sólida e diversificada. Ao longo do seu percurso, participou em cinco missões de manutenção da paz das Nações Unidas, realizou quatro destacamentos em programas de desenvolvimento da ONU e integrou nove missões da União Europeia.

Paralelamente, desenvolveu atividade no sector privado, onde a sua experiência internacional, capacidade de negociação e leitura estratégica de ambientes complexos se revelaram particularmente valiosas. Essa passagem permitiu-lhe integrar uma lógica de eficiência, tomada de decisão e gestão de risco, complementando a visão institucional com pragmatismo e foco em resultados, sem abdicar de princípios.

A experiência no terreno levou Marta a aprofundar o Direito Internacional Público, área em que concluiu um Mestrado na Universidade de Leiden. No entanto, foi sobretudo a realidade dos conflitos que a conduziu à área da negociação e da resolução alternativa de conflitos.

Convicta de que muitos litígios não encontram solução eficaz exclusivamente nos tribunais, investiu em formação avançada em Negociação na Faculdade de Direito de Harvard e numa pós-graduação em Negociação, Mediação e Resolução de Conflitos na Universidade Católica. Este enfoque tornou-se central também na sua relação com a academia. Marta tem sido convidada a realizar apresentações académicas, em particular sobre negociação em contextos internacionais, defendendo abordagens colaborativas, culturalmente sensíveis e orientadas para soluções sustentáveis. Para si, negociar é uma competência estratégica essencial num mundo fragmentado, marcado por assimetrias de poder e desconfiança estrutural.

Sudão do Sul: O Limite, o Risco e a Mudança de Foco

Entre todas as missões internacionais, o Sudão do Sul representa um ponto de viragem. Foi a missão mais difícil da sua carreira, não apenas pela complexidade política e social, mas porque esteve detida por grupos rebeldes — uma experiência extrema que redefiniu a sua perceção do risco, da vulnerabilidade e do impacto real do trabalho internacional.

Esse episódio marcou profundamente o seu percurso e contribuiu para uma mudança de foco: do peacekeeping para o desenvolvimento, da resposta imediata para a construção de soluções estruturais e duradouras. Reforçou também a sua convicção de que a paz não se impõe; constrói-se com tempo, confiança, inclusão e desenvolvimento humano.

Geopolítica, Liderança e Inteligência Artificial

Marta acompanha com preocupação a evolução da geopolítica contemporânea, marcada pela sobreposição de interesses individuais e de egos masculinos sobre interesses coletivos da humanidade. Considera este fenómeno particularmente perigoso num momento de transição acelerada para a era da inteligência artificial e da aprendizagem automática.

Para si, o risco não reside apenas na tecnologia, mas na ausência de enquadramento ético, de bom senso e de liderança responsável. Sem esses pilares, a inteligência artificial pode amplificar desigualdades, enviesamentos e exclusões. Em contextos de mediação e de ação humanitária, a interação humana, a confiança e a legitimidade continuam a ser insubstituíveis. O futuro exige criatividade humana, adaptação consciente e sistemas de governança e de direito firmemente an- corados nos direitos humanos e nos princípios fundamentais conquistados nas últimas décadas.

A inteligência artificial pode apoiar sistemas de alerta precoce, resposta a desastres, logística, saúde digital e prevenção, desde que usada de forma ética, humana e contextualizada. Para Marta, o futuro passa por parcerias responsáveis entre organizações humanitárias e o sector privado, capazes de acelerar inovação sem comprometer princípios fundamentais e direitos humanos.

Diáspora como Rede Viva de Talento

A convicção de que a liderança não se exerce apenas dentro das instituições levou Marta a olhar para a diáspora não como um fenómeno de afastamento, mas como uma rede viva de talento, conhecimento e experiência. Essa visão está no centro do livro Caminhos Globais, que dá voz a portugueses a trabalhar em organismos internacionais e europeus, tornando visíveis percursos muitas vezes silenciosos, mas estrategicamente relevantes para o país.

Dessa reflexão nasce também a Rede de Portugueses nos Organismos Internacionais e na União Europeia, uma associação profissional que procura reforçar ligações, criar sentido de pertença e valorizar o serviço público internacional prestado por portugueses.

Esta iniciativa dialoga diretamente com a Resolução do Conselho de Ministros n.o 132/2022, de dezembro, que define como prioridade de política externa o apoio às carreiras portuguesas em organizações internacionais e europeias, reconhecendo o seu valor estratégico para o posicionamento de Portugal no mundo.
Complementarmente, Marta funda a Resposta Luso, dedicada à valorização do capital humano lusófono com experiência internacional e à cooperação Sul–Sul, reforçando pontes entre países de língua portuguesa, instituições e sectores.

2025: Consolidação e Olhar para 2026

O ano de 2025 não surge como um ponto isolado, mas como a consolidação natural das conquistas lançadas em 2024. Em julho, o livro Caminhos Globais é lançado numa apresentação institucional promovida pelo Instituto Diplomático e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, seguindo-se uma digressão internacional por Bruxelas, Nova Iorque, Washington, Paris, Luxemburgo, Estrasburgo, Genebra, Lisboa, Porto e Funchal.

O livro transforma-se num espaço de reflexão, reconhecimento e projeção dos percursos de portugueses que trabalham nos organismos internacionais e europeus. Nesse mesmo ano, Marta regressa ao doutoramento na Universidade de Birmingham dedicando-se a aprofundar a temática da resolução alternativa de conflitos em contextos internacionais.

Em 2025, integra também o Conselho da Diáspora Portuguesa, criado em 2012 sob o alto patrocínio do Presidente da República, com a missão de reforçar as relações de Portugal com as comunidades portuguesas e luso-descendentes espalhadas pelo mundo — um reconhecimento institucional do seu percurso e do seu compromisso com a diáspora como ativo estratégico nacional.

No mesmo contexto de visão global e assimilação cultural, após doze anos de processo, adquire a nacionalidade australiana, num momento de forte simbolismo: no mesmo dia em que nasceu em Portugal — 29 de maio — e no Dia Internacional dos Capacetes Azuis das Nações Unidas, tornando essa data triplamente significativa.

Para Marta Henriques Pereira, liderar é um exercício de resistência consciente, de continuar mesmo longe dos holofotes, não de exibição. Os obstáculos não são barreiras, mas degraus. Cada desafio ativa criatividade e desenvolve competências.

Num mundo acelerado, fragmentado e tecnologicamente poderoso, a sua liderança recorda uma verdade essencial: o futuro não se constrói com pressa, mas com auto motivação e propósito, sempre com pequenos passos, um após o outro.