Liderar não é sobre estar: é sobre o que fica

Rita Veloso VOGAL EXECUTIVA DA UNIDADE LOCAL DE SAÚDE SANTO ANTÓNIO PROFESSORA AFILIADA NO INSTITUTO DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS ABEL SALAZAR

Rita Veloso volta a destacar-se no panorama da liderança em Portugal ao ser novamente reconhecida como The Best of 2025 pela Revista Liderança no Feminino. Com um percurso marcado pela visão estratégica, pela capacidade de transformar equipas e por uma gestão orientada para resultados, Rita assume a capa desta edição especial como símbolo de uma liderança que inspira, inova e deixa marca.

 

Liderar é estar presente com responsabilidade e preparar o futuro com consciência — mesmo quando já não estivermos lá para o ver. A saída de um cargo de liderança é um momento de verdade. Revela não só o que foi feito, mas como se esteve. Como já tive ocasião de escrever, “não se trata de passar pelos lugares, mas de estar nos lugares”.

Estar é comprometer-se com o presente e com o futuro, com as pessoas e com o propósito. E isso implica preparar a sucessão desde o primeiro dia. Preparar a sucessão desde o início significa construir equipas autónomas, partilhar conhecimento, documentar processos, apostar da gestão do conhecimento, cultivar lideranças emergentes e criar uma cultura de continuidade. É garantir que o projeto não depende de uma pessoa, mas de uma visão partilhada. É formar quem vem aseguir, mesmo que ainda não saibamos quem será. É liderar com humildade e generosidade.

Num cenário global, os dados mostram uma crescente relutância em assumir ou manter cargos de chefia. Um estudo da LEADedu revela que muitos profissionais evitam posições de liderança por receio do desgaste, da solidão e da perda de equilíbrio pessoal. O relatório “Women in the Workplace 2025”, da McKinsey e Lean In, mostra que 43% das mulheres em cargos de liderança consideram deixar os seus postos por falta de apoio e oportunidades de crescimento.

Segundo a organização internacional Nascia, 60% dos líderes já apresentaram sintomas de esgotamento profissional. A pressão constante, a sobrecarga e a falta de apoio institucional tornam a liderança um lugar de risco para a saúde mental.

O burnout é uma das causas mais alarmantes dessa evasão. Em 2020 liderei uma das maiores investigações mundiais sobre o “Burnout nos Profissionais de Saúde durante a Pandemia COVID-19” (Universidade do Porto, 2020), incluiu uma análise comparativa entre diferentes grupos profissionais, incluindo gestores e administradores hospitalares, com mais 5500 participantes. O estudo revela que apesar dos gestores e administradores não atingirem os níveis críticos observados em profissionais da linha da frente, os gestores relataram níveis moderados de exaustão emocional, sobretudo associados à pressão para reorganizar serviços, gerir recursos escassos e tomar decisões difíceis em tempo real. Os gestores demonstraram níveis mais elevados de realização pessoal, o que pode estar relacionado com a perceção de impacto positivo das suas decisões na resposta organizacional à pandemia.

No entanto, o estudo alerta que, apesar dos níveis globais de burnout serem inferiores aos dos clínicos, os gestores enfrentaram desafios significativos, como a necessidade de rápida adaptação a novas diretrizes, a gestão de equipas em crise e a responsabilidade por decisões com implicações éticas e humanas profundas. Esses dados reforçam a importância de cuidar também da saúde mental dos líderes institucionais, muitas vezes esquecidos nas estratégias de apoio psicológico e por isso quem me conhece sabe, que defendo as lideranças saudáveis, começando por reconhecer que todos, independentemente do cargo, precisam de espaços de escuta, descanso e validação emocional.

Uma liderança saudável é aquela que “não falha quando tudo o resto falha na vida das nossas Pessoas”. Esta afirmação poderosa reforça a ideia de que o líder não é apenas gestor de tarefas ou resultados, mas um pilar emocional e humano dentro das organizações. A liderança saudável é, acima de tudo, uma liderança que cuida — e que se cuida É, por isso, urgente reconhecer a importância de criar ambientes de trabalho onde as pessoas se sintam seguras, valorizadas e escutadas. Isso implica, por exemplo, reconhecer os sinais de exaustão, promover pausas, respeitar os ritmos individuais e fomentar uma cultura de confiança. Como outrora escrevi, “liderar é estar disponível” — não apenas para resolver problemas, mas para acolher fragilidades, dúvidas e silêncios.

Em 2022 procurei, eu própria ajuda. Tínhamos acabado de ultrapassar uma pandemia que deixaria impacto na vida pessoal, profissional e na sociedade. Para quem trabalha na saúde, esse impacto no seu trabalho ainda terá sido maior. Fiquei por alguns meses com a “carga” de gerir a grande maioria dos serviços não clínicos do meu hospital, em áreas que exigência um rigor, uma competência técnica e a nossa dedicação inteira e por inteiro e isso deixa inevitavelmente marcas. São tarefas sem+ fim. Essa ajuda foi essencial para superar alguns desafios profissionais e pessoais, entre eles, dizer que não a uma posição de presidente de uma grande instituição pública, sem sentir arrependimento. Porque equidade não pode depender de dizer “sim” a um lugar de liderança, mas sim, ter as mesmas oportunidades para ocupar esses lugares e poder escolher dizer “não”, se assim for o que decidimos, em consciência, ser.

Segundo a organização internacional Nascia, 60% dos líderes já apresentaram sintomas de esgotamento profissional. A pressão constante, a sobrecarga e a falta de apoio institucional tornam a liderança um lugar de risco para a saúde mental. O caso de António Horta Osório é paradigmático. Após uma carreira brilhante no Lloyds Bank, foi chamado para liderar a reestruturação do Credit Suisse. No entanto, a sua passagem foi breve: nove meses depois, demitiu-se na sequência de uma polémica relacionada com o incumprimento de regras sanitárias durante a pandemia⁽. A sua saída abrupta custou ao banco 1,8 mil milhões de euros em valor de mercado⁽⁸⁾. Ainda assim, o seu regresso à banca em 2025, como vice-presidente do banco francês CCF, mostra que é possível recomeçar com integridade e propósito.

Gerir uma empresa pública ou recursos públicos exige um compromisso ético redobrado. Ao contrário do setor privado, onde o foco é o lucro, a gestão pública visa maximizar o benefício social. Isso implica transparência, responsabilidade fiscal e uma escuta ativa da sociedade, sendo essencial garantir que cada euro gasto reflita as prioridades coletivas e promova o bem comum. Neste contexto, o papel dos líderes saudáveis é vital através de uma liderança que escuta, que se compromete com o bem-estar das equipas e que não esquece a
importância de cuidar de si próprio para cuidar dos outros.

A minha visão de liderança hospitalar, inspirada em modelos de outros setores, como
a aviação, hotelaria ou a restauração, mostra que pensar “fora da caixa” (ou pensar
mesmo que “não existe nenhuma caixa…” é também uma forma de proteger quem
lidera e quem é liderado.

Liderar é, acima de tudo, um ato de presença e de responsabilidade. É deixar um lugar melhor do que o encontrámos. E isso começa no primeiro dia — com a consciência de que um dia, inevitavelmente, sairemos. E que o verdadeiro legado será aquilo que deixarmos preparado para quem vier depois de nós.

Esta visão está profundamente alinhada com a ideia de preparar a sucessão desde o primeiro dia. Um líder que cuida das suas pessoas está, inevitavelmente, a formar futuros líderes. Está a criar condições para que outros possam crescer, assumir responsabilidades e continuar o legado com autenticidade. Incorporar esta perspetiva no texto anterior reforça a urgência de repensar os modelos de liderança. Não basta preparar relatórios ou cumprir metas. É preciso preparar pessoas. E isso começa com uma liderança que se compromete com o bem-estar coletivo, que reconhece os seus próprios limites e que entende que o verdadeiro poder está na partilha — não na posse. E não esqueçamos, o momento da nossa saída dirá muito mais sobre nós, do que o momento da nossa chegada e liderar não é sobre estar: é sobre o que fica.