Investigadora, docente universitária e cofundadora de uma biotech portuguesa, Andreia Valente constrói pontes entre ciência fundamental, inovação aplicada e liderança. Uma entrevista sobre rigor, risco, escolha e o papel das mulheres na ciência que cria valor.
A trajetória de Andreia Valente, Co‑founder and CTO da R‑nuucell, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigadora no Centro de Química Estrutural, é um exemplo raro de continuidade entre mundos que, durante décadas, foram tratados como universos paralelos: a investigação científica, a docência e o empreendedorismo tecnológico. No seu percurso, esses domínios não competem entre si — complementam‑se. Licenciada em Química Tecnológica pela FCUL, Andreia cedo percebeu que a ciência não se esgota na produção de conhecimento nem nas páginas de uma publicação académica. “Sempre senti que poderia ter um papel na transição entre a ciência mais fundamental e a sua aplicação na vida real”, afirma.
Essa convicção inicial amadureceu quando se confrontou com a complexidade real de transformar descobertas em soluções concretas, especialmente no exigente campo do desenvolvimento de potenciais fármacos. O percurso entre a prova de conceito em laboratório e uma eventual entrada no mercado revelou‑se longo, regulado, dispendioso — e profundamente estratégico. “Foi nesse momento que a ciência deixou de ser apenas descoberta e passou a ser, também, responsabilidade, estratégia e criação de valor”, sublinha.
Do rigor académico à urgência da decisão
Enquanto investigadora e orientadora de teses de Mestrado e Doutoramento, Andreia descreve um ambiente onde o tempo serve o aprofundamento do conhecimento: testar hipóteses validar resultados, compreender mecanismos. Já no contexto empresarial, especialmente numa startup científica que procura investimento, o cenário altera‑se radicalmente. O rigor mantém‑se inegociável, mas as perguntas mudam. Tornam‑se orientadas para decisões claras, com impacto direto no futuro do projeto. “O que distingue o contexto académico do contexto empresarial não é o rigor nem a ética científica, mas a forma como o conhecimento é colocado ao serviço da decisão”, explica. No mercado, saber cedo se uma abordagem é viável — mesmo que a resposta seja negativa — permite poupar recursos e reorientar estratégias. A ciência, aqui, não perde profundidade: ganha urgência.
Aprender uma nova linguagem
A transição para o empreendedorismo exigiu competências pouco presentes na formação científica tradicional. Andreia não hesita em reconhecer que uma das maiores dificuldades foi aprender uma nova linguagem. “De repente descobrimos um novo ‘dicionário’, cheio de vocabulário e conceitos que simplesmente não dominávamos”, recorda. O apoio da Tec Labs, enquanto incubadora, a formação em empreendedorismo associada a concursos europeus e a mentoria internacional foram determinantes para estruturar o projeto, construir um plano de negócios sólido e comunicar a proposta de valor além da comunidade científica. A Agência Nacional de Inovação (ANI) teve também um papel relevante, acompanhando o projeto e posicionando‑o no ecossistema nacional e europeu. “Aprendemos que uma boa ciência só cria impacto se souber ser compreendida fora do seu círculo natural.”
Liderar na incerteza
Liderar projetos científicos em contextos altamente incertos exige uma combinação rara de análise, intuição e coragem. Andreia descreve o seu processo de tomada de decisão como profundamente informado, mas consciente das limitações da informação disponível. “Gosto de tomar decisões em consciência, depois de recolher o maior número de dados possível”, afirma, acrescentando que, em inovação, nem sempre é possível esperar por respostas completas. “Há momentos em que é preciso decidir mesmo na incerteza e avançar sem medo, sabendo que errar faz parte do processo.” A liderança, nestes contextos, constrói‑se no equilíbrio entre rigor científico e responsabilidade estratégica.
Ciência como pilar ético e sustentável
Para Andreia Valente, a liderança científica desempenha um papel central na construção de organizações sustentáveis e eticamente responsáveis. No desenvolvimento de fármacos, desafios técnicos surgem mesmo depois de um efeito terapêutico estar comprovado — sobretudo na transição de escala e no cumprimento de normas regulatórias cada vez mais exigentes. “Pequenas impurezas que eram irrelevantes em pequena escala podem tornar‑se problemas críticos”, explica. Além disso, decisões técnicas têm implicações ambientais, económicas e regulatórias, obrigando a estratégias de síntese mais limpas e sustentáveis. “Uma liderança científica atenta ajuda a evitar soluções que compro ‑ metam o futuro da empresa”, reforça.
Mulheres, ciência e poder de decisão
Apesar de reconhecer sinais claros de evolução, Andreia não ignora os obstáculos persistentes à liderança feminina nas áreas STEM. A consciência da desigualdade surgiu de forma gradual, à medida que passou a participar em mais contextos de decisão. “Muitos cargos de chefia continuam maioritariamente ocupados por homens”, observa.
Ainda assim, valoriza os exemplos recentes de liderança feminina na ciência portuguesa, como a eleição de mulheres para cargos de topo na FCUL e no Centro de Química Estrutural, sublinhando a importância das referências visíveis. “Não são apenas simbólicas. Normalizam a presença feminina em posições de liderança científica.” Para o futuro, defende uma mudança cultural sustentada, que vá além de programas pontuais e promova igualdade de oportunidades ao longo de toda a carreira Enquanto docente, Andreia encara a formação das novas gerações como uma missão que ultrapassa a transmissão de conhecimento técnico. “É essencial que aprendam rigor, pensamento crítico, sentido ético e capacidade de adaptação”, afirma.
Num mundo em rápida transformação, mais do que preparar especialistas, importa formar pessoas capazes de construir caminhos próprios e compreender o impacto social da ciência que produzem.
Às mulheres cientistas que ambicionam liderar projetos inovadores, Andreia deixa um conselho claro: não abdicar do rigor, mas aceitar que o enquadramento muda.“O rigor científico não é negociável. O que muda são as perguntas e a forma de as colocar.” Defende ainda a importância de procurar mentores, redes e equipas complementares, lembrando que liderar inovação nunca é um percurso solitário. E conclui com uma imagem que sintetiza toda a sua visão, citando Helena Garcia, cofundadora da R‑nuucell, inspirada em António Gedeão: “Quando um novo composto nasce, o mundo pula e avança.” É por esses momentos — quando a ciência rigorosa se transforma em esperança real — que, para Andreia Valente, vale a pena arriscar, decidir e liderar.





