Num tempo em que algoritmos aceleram decisões e a tecnologia redesenha fronteiras a cada dia, Cristina Moura Rebelo convida-nos a abrandar – não para parar, mas para pensar. Mentora, autora e referência em liderança, resiliência e transformação digital, ela desafia-nos a regressar ao essencial: o propósito que sustenta quem somos e a coragem que molda quem escolhemos ser. Nesta 86.ª edição da Revista Liderança no Feminino, entramos no seu universo para descobrir como liderar com verdade num mundo cada vez mais movido pela Inteligência Artificial.
Resiliência: a competência invisível que sustenta líderes na era exponencial
Se há palavra que atravessa o trabalho de Cristina, é resiliência. Mas não a resiliência entendida como resistência ou estoicismo. Para ela, trata-se de treinar mente e coração para responder de forma consciente e estratégica aos desafios – uma competência vital num contexto em que a mudança é constante, imprevisível e, difíceis, recusar usos questionáveis e assegurar que ninguém fica para trás no acesso ao conhecimento e às oportunidades.
A mudança como processo humano
Ao longo do seu trabalho como mentora e autora, Cristina observa um obstáculo recorrente: a tendência para tratar a mudança como um projeto técnico, quando na verdade é um processo profundamente humano. Medo, insegurança, perda de identidade profissional e necessidade de pertença são elementos que acompanham qualquer transformação significativa. Outro desafio frequente é o desalinhamento entre direção e equipas intermédias, muitas vezes sobrecarregadas ou pouco envolvidas na construção da visão. Sem tempo protegido para aprender e integrar novas práticas, a mudança torna-se apenas “mais uma tarefa” numa agenda já saturada.
Para ultrapassar estes bloqueios, Cristina aposta em três pilares: storytelling estratégico para clarificar o caminho, metodologias experienciais como LEGO® SERIOUS PLAY® para dar voz a todos, e planos concretos que traduzem visão em comportamentos diários. A mudança sustentável, acredita, acontece quando as pessoas se reconhecem como
parte da solução.
Espiritualidade, valores e liderança: um equilíbrio possível
A espiritualidade é uma dimensão central na vida e no trabalho de Cristina. Referências como o Salmo 27:8 não são apenas inspiração, mas um convite a liderar a partir de um lugar de presença, escuta e confiança. Essa visão traduz-se em práticas concretas: criar espaços seguros para conversas difíceis, integrar fé e pragmatismo, e tomar decisões alinhadas com valores que protegem a saúde emocional, familiar e profissional. O seu livro mais recente, Atrevete: 30 passos para empreender com fé, propósito e impacto, no feminino, reflete precisamente essa integração entre espiritualidade, estratégia e ação.
Competências humanas para um futuro tecnológico
Num mundo onde a tecnologia evolui mais rápido do que a capacidade humana de a acompanhar, Cristina destaca três competências essenciais: pensamento crítico, autenticidade e humildade intelectual. A capacidade de fazer perguntas certas, construir comunidades e manter curiosidade disciplinada torna-se um diferencial num ecossistema onde o conhecimento técnico se renova diariamente.
Liderança feminina num mundo digital: lado a lado, não atrás
Cristina vê o futuro da liderança feminina como uma oportunidade de recuperar o papel da mulher enquanto aliada estratégica – não subordinada, mas correspondente. As mulheres, afirma, trazem frequentemente uma sensibilidade única para equilibrar resultados e relações, estratégia e cuidado, tecnologia e ética. E esse equilíbrio é vital num mundo onde a polarização digital ameaça distorcer valores e modelos de liderança. Como mãe de dois rapazes, assume também a responsabilidade de educar para o equilíbrio, contrariando narrativas extremistas que emergem no espaço digital.
Uma mensagem final para as líderes da nova era
Quando convidada a deixar uma mensagem às líderes – e futuras líderes – que hoje se sentem desafiadas pela velocidade da transformação digital, Cristina regressa à sua própria jornada. Às dúvidas, às quedas, às pessoas que a apoiaram e mentorearam. A sua mensagem é simples, mas profundamente humana: não é preciso controlar tudo, nem ter todas as respostas, para liderar bem. O essencial é decidir quem queremos ser no meio da mudança. E acrescenta um alerta importante: escolher bem a rede de apoio. “Toda a gente quer o nosso sucesso – mas só quando ele acontece vemos quem o quer realmente.”
Para Cristina, liderança é aprendizagem contínua, serviço consistente e coragem de avançar um passo de cada vez. Porque, mesmo na era da tecnologia, há algo que permanece exclusivamente humano: a coragem e o propósito que sustentam quem lidera com verdade.





