Liderar com esta responsabilidade é representar um legado, mas também construir o futuro

Ana Clara Silva DIRETORA DE OPERAÇÕES DA PIPADOURO

Há vidas que se escrevem como rios: firmes, contínuas e cheias de curvas inesperadas. A de Ana Clara Silva é uma dessas histórias. Da restauração ao turismo fluvial de luxo, cresceu com a Pipadouro e transformou obstáculos em degraus. Hoje, como Diretora de Operações, lidera com paixão e rigor, inspirada pelo Douro e pela força de quem acredita que a liderança feminina não é exceção — é avanço. ‘Não esperem que o mundo vos dê permissão. Criem o vosso lugar. Façam ouvir a vossa voz’, afirma, com a convicção de quem viveu cada palavra.

 

1. Pode partilhar connosco o seu percurso desde os primeiros passos na restauração até assumir a direção de operações da Pipadouro?

Nasci numa família humilde, sou a quinta de seis irmãos e a única que seguiu para o ensino superior. Desde cedo soube que teria de construir o meu próprio caminho. Com 15 anos, decidi entrar numa escola profissional, numa altura em que estes cursos eram exigentes, muito práticos e profundamente ligados ao mercado de trabalho. Precisava de independência financeira e comecei a trabalhar numa empresa de catering, servindo em casamentos aos fins de semana. Concluí o curso com distinção, inspirada pela coordenadora e com o desejo de ser formadora. Passei por hotéis e restaurantes até chegar à antiga TMN, onde consegui tirar o Curso de Aptidão Profissional. Aos 21 anos, comecei a dar formação e, sentindo a responsabilidade de ensinar, decidi ingressar na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego (ESTGL) para tirar a licenciatura em Gestão Turística, Cultural e Patrimonial — estudando, trabalhando, dando formação e sendo bombeira voluntária.

Em 2008, fui destacada para um serviço no Friendship I, no primeiro ano de operação da Pipadouro. Comecei como camareira e tive o privilégio de ver o projeto nascer por dentro: observar, aprender com quem por ali passava e compreender a visão diferenciadora que os sócios queriam trazer ao Douro. Apaixonei-me pela náutica, pelo conceito e pela beleza daquela experiência. Mantive essa ligação durante anos, enquanto continuava a dar formação. Quando senti necessidade de mudar de vida, apresentei ao fundador a minha disponibilidade para integrar a equipa de forma permanente. Com um bebé pequeno, era claro que o meu caminho seria no escritório. Arriscámos os dois. Três meses depois, num período de transição da empresa, fui promo- vida a Diretora de Operações da Pipadouro. Desde então, estudo constantemente, procuro saber mais, sentir mais e transformar esse conhecimento em inspiração para a minha equipa. Cresci com a Pipadouro — e continuo a crescer por ela e com ela.

2. O Douro é uma região única e com forte identidade. De que forma sente que este território influencia a sua visão e prática de liderança?

O Douro ensina-nos tudo sobre visão, resiliência e detalhe. É um território feito de esforço, de geometria, de força e harmonia — e isso molda profundamente a minha liderança. Mas liderar no Douro só é possível quando se conhece verdadeiramente a região. O facto de ter trabalhado tantos anos a bordo, no terreno e na operação diária, deu-me uma sabedoria prática que considero essencial: saber o que é trabalhar no verão com 43 graus; perceber que, para oferecer ao cliente a viagem que idealiza, é preciso conhecer cada curva do trajeto até chegar à quinta; dominar as condicionantes de navegação; compreender as particularidades das infraestruturas da região; e conhecer os costumes das pessoas que aqui vivem e trabalham. Tudo isto influencia a forma como lidero. Dá-me sensibilidade para planear com rigor, flexibilidade para adaptar e autenticidade para entregar experiências reais. No Douro, nada é superficial: cada decisão exige respeito pela história, sensibilidade pelo presente e coragem para inovar. Este território inspira-me a ser melhor líder — mais atenta, mais estratégica e mais responsável pelo legado que representamos. E é também o que me permite mostrar o Douro autêntico, real e verdadeiro a quem o quer, de facto, conhecer.

3. Que fatores considera determinantes para alcançar o reconhecimento internacional da Pipadouro?

O reconhecimento da Pipadouro resulta de uma combinação de paixão, rigor, visão e profissionalização. Estou na empresa desde o primeiro ano e vi-a crescer, aprender e evoluir. Se no início atuávamos de forma mais reativa — como acontece com muitos projetos emergentes — hoje planeamos o futuro, analisamos internamente a nossa performance e estudamos o meio que nos envolve. Quando assumi a direção, senti que era o momento de consolidar um posicionamento que sempre existiu: a Pipadouro era A empresa de turismo fluvial de luxo no Douro, profundamente ligada ao enoturismo. Os nossos clientes sabiam isso. Os nossos parceiros sabiam isso. Eu sabia isso. Mas era necessário que o mercado, como um todo, o reconhecesse igualmente. Fizemos esse caminho de afirmação estratégica, comunicação consistente e excelência operacional. Hoje, o nosso sucesso assenta em:
– Profissionalização e visão estratégica
– Paixão genuína pelo projeto
– Autenticidade da experiência
– Excelência operacional
– Equipa comprometida e alinhada
– Diferenciação no luxo discreto e exclusivo
Quando acreditamos profunda- mente no que fazemos, a excelência torna-se inevitável — e o reconhecimento surge como consequência natural.

4. O que distingue a experiência oferecida pela Pipadouro?

A Pipadouro distingue-se pela alma e pela autenticidade. Não oferecemos passeios de barco; oferecemos vivências íntimas, emotivas e memoráveis no coração do Douro. Quem trabalha na Pipadouro reconhece profundamente o valor único da região e dos barcos com que operamos. Acreditamos numa verdadeira simbiose entre os nossos barcos e o Douro — eles pertencem à paisagem, encaixam na identidade do rio e elevam a experiência a um nível incomparável. Viajar no Douro em barcos clássicos das décadas de 50 e 60 é sentir história, estética, tempo e alma. O Friendship I é, por si só, um conceito único: um autêntico boutique hotel flutuante, onde o conforto, a privacidade, o  serviço e a equipa criam um ambiente absolutamente exclusivo. A bordo, cada pessoa pode ser tudo o que desejar. Pode desfrutar da simplicidade de estar descalça enquanto contempla o rio, ou viver uma refeição de fine dining. Pode receber uma massagem no meio da paisagem, ouvir música ao vivo — como um violino que ecoa sobre o vale —, apanhar sol no convés ou simplesmente deixar-se abraçar pelo silêncio e pelo excesso de natureza que o Douro oferece.

O facto de sermos uma empresa pequena, que respeita a região e o cliente de igual forma, permite-nos manter um serviço profundamente humano e personalizado. Temos crescido, sim, mas o crescimento nunca foi o nosso objetivo principal. O nosso maior propósito é que cada cliente sinta que aquele momento connosco foi o ponto alto da sua estadia no Douro. Não queremos ser complemento: queremos ser essência, memória, destaque. A proximidade com o cliente, a simplicidade coberta de qualidade e a capacidade de oferecer tempo de qualidade são as nossas maiores conquistas. A paixão e o orgulho que colocamos em tudo o que fazemos são sentidos por quem embarca connosco — e é isso que nos torna verdadeiramente únicos.

5. Como gere a responsabilidade de liderar uma equipa numa empresa com acionistas de referência como a Real Companhia Velha e a Quinta do Crasto?

Estou na Pipadouro desde o seu primeiro ano de atividade  comecei como camareira. Vi o projeto crescer, observei, aprendi e absorvi a visão diferenciadora dos sócios. Isso deu-me algo único: um conhecimento profundo do que significa ser Pipadouro. Hoje sinto total confiança da parte dos acionistas, porque a nossa relação assenta em três pilares inegociáveis:
– Transparência absoluta
– Comunicação ativa e permanente
– Alinhamento estratégico total
Liderar com esta responsabilidade é representar um legado, mas também construir o futuro. É honrar a história e manter viva a ambição que nos trouxe até aqui.

6. Que competências considera essenciais para liderar no setor do turismo e do vinho?

Para mim, liderar não é um título; é um exercício diário de consciência, responsabilidade e verdade. A competência mais importante é a paixão , porque só quem acredita profundamente no que faz é capaz de superar obstáculos que, à primeira vista, parecem intransponíveis. Aprendi que o conhecimento técnico ajuda, mas o conhecimento humano transforma. Os anos em que estive a bordo, no calor do verão, no ritmo do rio, na realidade das infraestruturas e dos desafios concretos, ensinaram-me algo essencial: não se lidera à distância da realidade , lidera-se estando dentro dela. Essa vivência tornou-me próxima das minhas equipas, tanto em terra como no rio. Fez-me entender as dificuldades, respeitar cada função e criar uma cultura de entreajuda onde todos contam. Sempre acreditei que a liderança só acontece quando temos as pessoas certas ao nosso lado, aquelas que se identificam com o projeto, que sentem orgulho no que fazem e que se deixam apaixonar pelo conceito. Quando isso acontece, tudo é possível: partilhar ideias, discutir, recuar, avançar, criar, transformar. Mas a maior verdade que aprendi é esta: ser líder é crescer nos dias difíceis. Cresci mais quando os grandes obstáculos surgiram e não havia ninguém a quem passar a responsabilidade. Tive de lidar eu, assumir eu, resolver eu. E, nesses momentos, descobri que a liderança não se mede nos dias de sucesso, mas na forma como enfrentamos o que dói, o que desafia e o que exige de nós uma versão maior de nós mesmos. Ser líder é compreender que o destino de um projeto – e o emprego de várias pessoas – está nas nossas mãos. É uma responsabilidade séria, que exige equilíbrio e profundidade. Exige que sejamos:
– justas,
– atentas,
– estratégicas,
– emocionais quando é preciso sentir,
– práticas quando é preciso agir.
Ser líder é viver nesta tensão saudável entre coração e razão, e ainda assim avançar com firmeza. Liderança não é perfeição. Liderança é presença. É coragem. É ética. É humildade para aprender e grandeza para decidir. O sucesso de uma liderança nunca é individual. É sempre a soma das pessoas certas, no lugar certo, com o propósito certo. E essa é a maior riqueza que tenho na Pipadouro.

7. Que mensagem gostaria de deixar a outras mulheres que ambicionam cargos de liderança?

O contexto não define o nosso potencial. O que define é a coragem de agir e a disciplina de continuar, mesmo quando o caminho não nos é facilitado. Acredito profundamente que as mulheres têm uma capacidade extraordinária de liderar. Muitas vezes, somos confrontadas com preconceitos que tentam reduzir aquilo que é, na verdade, a nossa maior força. Dizem-nos que somos emocionais – e somos, sim. Mas é essa emoção que nos permite ver o detalhe, compreender as pessoas e liderar com sensibilidade e humanidade. Dizem-nos que somos temperamentais – e é esse temperamento que nos dá coragem para defender ideias, para sustentar convicções e para conquistar o nosso espaço. Vivemos com a pressão constante da aparência, mas a nossa verdadeira elegância está na postura com que enfrentamos desafios, na forma como sustentamos o que acreditamos e na coragem de marcar posição — mesmo quando isso implica sair da linha confortável das expectativas. É possível ser mulher, ser líder, ter filhos, ter família, ter vida — e ter sucesso. Exige mais de nós? Exige. Mas também nos devolve mais: devolve-nos propósito, realização e a certeza de que estamos a transformar o mundo à nossa volta. Sou a quinta de seis irmãos, vinda de uma família humilde. O meu percurso não foi linear. Nada me foi oferecido. Tudo foi construído com trabalho e paixão. Por isso, se há algo que quero transmitir às mulheres é isto: Não esperem que o mundo vos dê permissão. Criem o vosso lugar. Façam ouvir a vossa voz. Não recuem. A liderança feminina não é exceção – é avanço. E independentemente do cargo que ocupamos, somos sempre nós que determinamos o rumo da nossa vida. A verdadeira liderança começa quando decidimos não abdicar da nossa força.

8. Quais são os próximos desafios e objetivos da Pipadouro? Como pretende contribuir para esse futuro?

A Pipadouro está num momento de extraordinária clareza: sabemos quem somos, sabemos o que representamos e sabemos onde queremos chegar. O Douro deu-nos identidade; o tempo deu-nos maturidade; e a experiência deu-nos uma visão estratégica sólida, que guia cada passo do nosso futuro. Um dos nossos objetivos é expandir a nossa presença geográfica, explorando novas possibilidades que complementem a operação no Pinhão e nos permitam receber outros perfis de visitantes. Mas essa expansão nunca será feita à custa da autenticidade. A essência da Pipadouro permanece: experiências intimistas, verdadeiras e profundamente ligadas ao território. Outro pilar essencial da nossa visão é reforçar a Pipadouro como um palco privilegiado para as quintas do Douro. Queremos ser a ponte entre produtores, parceiros e visitantes; o meio que leva as pessoas ao coração da região. Acreditamos profundamente que:
– o rio é o melhor caminho,
– e o barco é o meio mais puro, mais nobre e mais autêntico de conhecer o Douro.
E, acima de tudo, acreditamos nisto:
Não navegamos apressados; navegamos conscientes. O futuro constrói-se como o percurso do rio: firme, contínuo e fiel ao seu leito. Queremos crescer, sim, mas queremos crescer fortes, coerentes e com raízes profundas. Queremos que cada conquista seja sustentada, que cada parceria seja duradoura e que cada nova etapa respeite a verdade do Douro. O meu contributo para esse futuro nasce da consciência de que carrego, todos os dias, a responsabilidade de um projeto e de uma equipa que acredita tanto quanto eu. Cresci com a Pipadouro, conheço o seu ADN e sei o peso de cada decisão. Por isso lidero com rigor, com paixão e com respeito — pelo território, pelas pessoas e pelo propósito que nos move. A minha missão é garantir que, onde quer que a Pipadouro chegue, chegue sempre fiel a si mesma: forte, sólida, autêntica… e profundamente ligada ao Douro.