A Liderança que se Reconstrói

Ana Teresa Santos
Como é que uma mulher que já teve “tudo” — e o perdeu num só dia — se torna numa líder capaz de reconstruir equipas, marcas e até a si própria? A história de Ana Teresa Santos começa no momento em que decidiu trocar a segurança do marketing pela adrenalina da televisão, e ganha profundidade quando a pandemia lhe arrancou o chão. Desde então, o seu percurso tornou‐se um manifesto vivo sobre resiliência, propósito e a coragem de assumir todas as dimensões que a compõem. Entre três continentes, projetos de impacto social e uma carreira que se recusa a caber numa só definição, Ana Teresa lidera com a convicção de que “a vida é feita de fases” — e que é na forma como respondemos a cada uma delas que se revela a verdadeira força de uma mulher.

 

Há percursos profissionais que se desenham como linhas retas, previsíveis, quase geométricas. O de Ana Teresa Santos nunca foi um desses. O seu caminho é feito de curvas, desvios, quedas abruptas e ascensões inesperadas — e talvez seja exatamente por isso que hoje lidera com uma profundidade rara, com uma clareza que só nasce de quem já teve de se reinventar mais do que uma vez. Quando fala do momento que redefiniu a sua forma de comunicar e liderar, Ana Teresa Santos não hesita. Volta sempre ao mesmo ponto da linha do tempo, como quem regressa a um lugar fundador: o dia em que deixou o departamento de marketing da Associação Nacional de Farmácias para se lançar num sonho improvável — ser repórter na Sport TV.
“Foi um processo exigente, com várias fases, castings e etapas ao longo de seis meses. Quando consegui entrar, larguei tudo. Nunca tinha tido um trabalho onde me sentisse tão feliz, quase eufórica, com um retorno pessoal tão forte.” A felicidade, porém, durou o tempo que a pandemia permitiu.

De um dia para o outro, a estrutura mudou, e Ana Teresa Santos foi despedida. O choque foi tão grande quanto a aprendizagem que dali retirou. “Esse momento ensinou-me duas coisas muito importantes: o que é sentir que temos tudo, em termos de realização pessoal, e ao mesmo tempo a consciência de que a vida é feita de fases. O mais importante é a nossa capacidade de resposta, de adaptação e de reconstrução.” Foi essa reconstrução — silenciosa, disciplinada, resiliente — que moldou a líder que hoje é.

Entre Continentes: A Liderança que se Faz ao Lado

Como diretora de marketing e comunicação do Kiala Group, Ana Teresa Santos gere equipas em Portugal, Angola e Cabo Verde. Três geografias, três ritmos, três culturas. E, ainda assim, uma só visão: a de que liderar é estar presente, não acima. “Não me sinto ‘do lado’ do cliente, sinto-me ao lado. Sinto que faço parte daquelas equipas, daquelas estruturas e daquelas pessoas.” Trabalhar num contexto multicultural ensinou-lhe que o marketing não é apenas estratégia — é sensibilidade. Que a liderança não é apenas direção — é escuta. E que o posicionamento de marca só ganha força quando nasce de dentro, quando respeita as realidades e as dores de quem a constrói no terreno. “Só quando compreendemos verdadeiramente as alegrias e também as dores de quem está connosco conseguimos construir estratégias personalizadas, com impacto real.”

Dream On It: Quando a Comunicação Deixa de Ser Ruído

A criação da Dream On It foi um passo natural. Depois de anos a trabalhar com marcas, equipas e mercados distintos, Ana Teresa percebeu que faltava algo no ecossistema da comunicação: profundidade. Intenção. Direção. “Impacto real em comunicação é gerar mudança concreta no negócio e na vida das pessoas. É quando uma estratégia deixa de ser apenas estética ou presença digital e passa a traduzir-se em posicionamento claro, confiança, decisão e resultados.” Para Ana Teresa Santos, comunicar não é publicar. Não é decorar feeds. Não é seguir tendências. É criar sentido. É ajudar marcas a saberem quem são e a tomarem decisões a partir dessa identidade. “Impacto real é quando a comunicação não é ruído, é ferramenta de crescimento.”

Descomplicar: A Voz que Acolhe e Liberta

No podcast Descomplicar, Ana Teresa Santos fala com a honestidade de quem já viveu várias vidas dentro da mesma vida. E percebe que as mulheres procuram, cada vez mais, aliviar o peso das múltiplas dimensões que carregam. “Somos profissionais, companheiras, muitas vezes mães, filhas, amigas, e ainda assim conseguimos construir carreiras bonitas e de destaque.” Mas há algo que considera urgente: a união. “Precisamos de abandonar de vez a ideia antiga de competição entre mulheres. Mulheres unidas têm uma força extraordinária.” O podcast tornou-se um espaço onde a vulnerabilidade não é fraqueza — é ferramenta. Onde a dúvida não é falha — é humanidade. Onde a carreira não é um destino — é um caminho em constante construção.

Voluntariado: O Terreno Onde a Liderança se Humaniza

O voluntariado acompanha Ana Teresa Santos há quase uma década. Primeiro em Portugal, depois em missões internacionais. E foi em comunidades africanas que encontrou uma das maiores transformações da sua vida. “Estar no terreno, conhecer outras culturas, viver realidades tão diferentes da minha, dá-me uma perspetiva muito mais ampla sobre o que é o mundo, o que é a vida e, sobretudo, sobre o que realmente importa.” Ali, longe das métricas, dos relatórios e das reuniões, descobriu que a liderança é, antes de tudo, serviço. Que o propósito não se escreve — vive-se. E que ajudar outros a crescer é uma forma de conquistar o mundo. “Para mim, conquistar o mundo não é só alcançar objetivos pessoais, é também ajudar outras pessoas a acreditarem nas suas próprias possibilidades.”

O Desafio da Multidimensionalidade

Ao longo da carreira, Ana Teresa Santos enfrentou um obstáculo subtil, mas persistente: a desconfiança perante a sua pluralidade. A capacidade de estar num palco, num estúdio e numa sala de reuniões com a mesma competência. “Durante algum tempo, esse cruzamento de áreas foi visto com desconfiança, como se uma dimensão pudesse descredibilizar a outra.” Mas foi precisamente essa pluralidade que se tornou a sua assinatura. A prova de que carreiras não precisam de ser lineares para serem consistentes. “As mulheres, e os seres humanos em geral, têm múltiplas capacidades e não têm de caber numa única definição.”

O Que Distingue uma Liderança Consciente

Para Ana Teresa Santos , a resposta é simples e profunda: valores. “Responsabilidade, lealdade, empatia e coerência.” Já trabalhou com pessoas de diferentes áreas, contextos e dimensões, e aprendeu que todos procuram o mesmo: serem ouvidos, compreendidos e respeitados. “Uma liderança consciente é aquela que sabe escutar com atenção plena e que transforma visão em ação de forma organizada, metódica e responsável.” Quando lhe pedimos uma mensagem final, Ana Teresa Santos não escolhe o caminho fácil. Escolhe a verdade. “Trabalhem, trabalhem e trabalhem mais um bocadinho. Na vida a nossa maior resposta serão os factos, a nossa maior prova serão os números que conseguirmos atingir.” Mas acrescenta algo ainda mais importante: a coragem de assumir vulnerabilidade.“Não tenham medo de dizer ‘não sei’, ‘nunca fiz’, ‘não conheço’. Quem mais faz, mais erra — e não é sinal de fraqueza reconhecer isso.”
E termina com uma reflexão que é, ao mesmo tempo, força e humanidade: “A vida é feita de desafios, mas também é feita da concretização de quem decide não desistir. Isto é… espero eu que seja, tenho dúvidas todos os dias, e fico feliz por isso.”