“O futuro das organizações não começa na estratégia. Começa no interior de cada líder”

Ana Gomes MENTORA EM LIDERANÇA CONSCIENTE SISTÉMICA
Perder os pais aos 20 anos obrigou Ana Gomes a crescer e a liderar muito antes de ocupar cargos de responsabilidade. Hoje, depois de quase três décadas à frente de equipas e empresas, a mentora em Liderança Consciente Sistémica defende que o verdadeiro sucesso das organizações não nasce das estratégias nem dos processos, mas do nível de consciência de quem lidera. Nesta entrevista, explica porque acredita que a transformação empresarial começa no autoconhecimento, na regulação emocional e na capacidade dos líderes de se conhecerem profundamente para inspirarem equipas mais saudáveis, resilientes e produtivas.

 

Há líderes que aprendem a liderar nos livros. Outros, nas salas de reunião. Ana Gomes aprendeu na vida. Muito antes de se tornar mentora em Liderança Consciente Sistémica, já a vida a tinha colocado perante um dos maiores desafios que alguém pode enfrentar: perder ambos os pais aos 20 anos. De um dia para o outro, a jovem que ainda procurava o seu lugar no mundo viu-se obrigada a assumir responsabilidades para as quais ninguém está verdadeiramente preparado. E foi nesse momento de rutura que começou, sem o saber, a construir as bases da líder que é hoje. “Não foi a profissão que me trouxe até aqui, foi a minha história”, afirma.

A dor transformou-se em maturidade. A necessidade transformou-se em capacidade de decisão. E aquilo que parecia apenas uma circunstância difícil acabou por revelar uma competência que a acompanharia ao longo de toda a sua vida profissional: a liderança. Durante quase três décadas, Ana Gomes liderou equipas e empresas. Entre os vários desafios, destaca-se a liderança de uma agência imobiliária premium com cerca de 80 profissionais.

Durante anos acreditou que liderar significava ajudar pessoas a atingir objetivos e alcançar resultados. Até que uma constatação mudou profundamente a sua visão. Os maiores bloqueios que encontrava nas equipas não estavam nas estratégias, nos processos ou nos indicadores. Estavam nas pessoas. Mais concretamente, nas histórias que cada uma carregava consigo. Foi essa descoberta que a levou a mergulhar no estudo do comportamento humano, da neurociência, do trauma, da liderança consciente e do desenvolvimento pessoal. Um percurso que lhe permitiu compreender uma ideia que hoje orienta toda a sua missão: nenhuma organização cresce para além do nível de consciência de quem a lidera.

A empresa é o espelho do líder

O momento de viragem aconteceu quando percebeu que mudar processos era relativamente simples. O verdadeiro desafio era mudar padrões humanos profundamente enraizados. Ao longo da sua experiência, encontrou líderes tecnicamente brilhantes, com visão estratégica e elevado conhecimento dos seus setores, mas limitados por medos invisíveis: o receio de falhar, a necessidade de controlar tudo, a dificuldade em confiar nos outros ou a incapacidade de delegar. “A certa altura compreendi que o problema raramente era a empresa. Era a forma como o líder se relacionava consigo próprio. “Dessa consciência nasceu o conceito que hoje orienta o seu trabalho: a Liderança Consciente. Para Ana Gomes, este modelo não se resume a uma abordagem mais empática ou humanizada da gestão. Trata-se, antes de tudo, de uma mudança de paradigma. “Liderança consciente é liderar a partir da consciência e não da sobrevivência.” A distinção pode parecer subtil, mas faz toda a diferença. Quando um líder atua em modo de sobrevivência tende a reagir impulsivamente, controlar excessivamente, evitar conflitos ou procurar aprovação constante. Em contrapartida, quando atua a partir da consciência consegue observar, refletir e responder com maior clareza. O resultado traduz-se em melhores decisões, relações mais saudáveis e equipas mais resilientes.

O trabalho mais importante acontece dentro de nós

Numa época em que se fala de inteligência artificial, transformação digital e inovação tecnológica, Ana Gomes continua a defender que a verdadeira transformação começa num lugar muito menos visível: o interior de cada líder. Autoconhecimento, regulação emocional e consciência dos próprios padrões são, na sua perspetiva, competências essenciais para quem pretende liderar de forma eficaz. “Todos desenvolvemos estratégias de sobrevivência durante a infância. Algumas pessoas controlam tudo. Outras evitam conflitos. Outras trabalham excessivamente para provar valor.” O problema, explica, é que muitos desses mecanismos que um dia garantiram proteção acabam por tornar-se limitações quando alguém assume responsabilidades de liderança. Quanto maior for a consciência dos seus próprios gatilhos emocionais, maior será a liberdade do líder para escolher como quer agir perante os desafios diários.

Bem-estar não é um benefício. É uma vantagem competitiva

Num mercado cada vez mais acelerado e exigente, muitos gestores continuam a ver o bem-estar como um benefício secundário, frequentemente incompatível com elevados níveis de desempenho.Ana Gomes discorda. Para a mentora, consciência, presença e resultados não competem entre si. Pelo contrário, potenciam-se mutuamente. Um líder emocionalmente regulado comunica melhor, inspira confiança, reduz conflitos e fortalece o compromisso das equipas. Consequentemente, as organizações tornam-se mais saudáveis e mais produtivas. “O bem-estar deixou de ser um benefício. Hoje é uma verdadeira vantagem competitiva.”

Quando a terapia encontra a liderança

Parte da singularidade da sua abordagem reside precisamente na integração entre terapia e mentoria. Enquanto a mentoria ajuda os líderes a definir onde querem chegar, a terapia permite compreender porque ainda não chegaram lá. A diferença é significativa. Segundo Ana Gomes, quando se trabalham apenas competências, alteram-se comportamentos. Mas quando se trabalha a história de vida, as emoções e as crenças profundas, transforma-se a identidade. E quando a identidade muda, a mudança deixa de depender de esforço permanente para passar a acontecer de forma natural e sustentável.

A nova liderança é humana

Num momento em que a liderança feminina ganha crescente relevância nos contextos empresariais, Ana Gomes prefere ampliar a perspetiva. Para si, o futuro não pertence a modelos exclusivamente masculinos ou femininos. Pertence a uma liderança mais humana. Reconhece que muitas mulheres trazem para os contextos profissionais competências particularmente valiosas, como a capacidade de escuta, a colaboração, a intuição e a visão sistémica. Contudo, observa igualmente desafios recorrentes, entre os quais a culpa, o síndrome do impostor e a necessidade permanente de agradar. A liderança consciente oferece-lhes precisamente a possibilidade de liderar sem abdicar da sua autenticidade. “Liderar sem precisar de copiar modelos antigos.”

Uma pergunta que pode mudar tudo

Depois de acompanhar líderes e equipas ao longo dos anos, Ana Gomes acredita que a transformação começa por uma simples mudança de pergunta. Em vez de questionar “Como lidero melhor?”, convida as pessoas a perguntarem-se: “Quem sou eu quando lidero?” A diferença é profunda. Porque, na sua visão, as organizações são reflexo direto da consciência dos seus líderes. E nenhuma estratégia, por mais sofisticada que seja, conseguirá compensar a falta de autoconhecimento de quem toma as decisões. Por isso, o conselho que deixa a quem inicia este caminho é simples: cultivar curiosidade, procurar feedback, conhecer os próprios gatilhos e investir no desenvolvimento interior. Afinal, como repete frequentemente, numa frase que se tornou quase um manifesto da sua missão: “O futuro das organizações não começa na estratégia. Começa no interior de cada líder.”