Longevidade: a grande reforma silenciosa que Portugal precisa de acelerar

Ana Clara Silva, Diretora Regional para as Políticas Públicas Integradas e Longevidade do Governo Regional da Madeira
A viver mais, mas ainda sem garantir melhor qualidade de vida,  Portugal enfrenta um dos maiores desafios estruturais da próxima década: transformar a longevidade numa política integrada, preventiva e com impacto real. Em entrevista à Liderança no  Feminino, Ana Clara Silva defende uma mudança de paradigma urgente, onde cuidar a tempo, inovar nos modelos e valorizar a liderança feminina são peças-chave para um sistema mais sustentável, humano e eficaz.

1. Como avalia a evolução das políticas públicas em Portugal no domínio da longevidade e do envelhecimento ativo ao longo da última década?

Portugal evoluiu no envelhecimento ativo e saudável, mas continua num momento de transição. A longevidade já não pode ser tratada apenas como questão de saúde, segurança social ou resposta à dependência: é uma realidade estrutural, com impacto na economia, no trabalho, na inovação, na habitação, na mobilidade, nos cuidados e na sustentabilidade dos sistemas públicos. A última década aproximou o país das orientações da Organização Mundial da Saúde e da União Europeia, valorizando funcionalidade, prevenção, autonomia e participação social. O desafio é transformar esse enquadramento em políticas públicas integradas, avaliadas e com impacto real. Viver mais é uma conquista civilizacional; garantir que esses anos sejam vividos com saúde, dignidade, segurança e participação é uma responsabilidade pública.

2. Quais são, na sua perspetiva, os principais desafios enfrentados pelos sistemas de cuidados de longa duração, tanto a nível da capacidade de resposta como da qualidade dos serviços prestados?

O principal desafio é garantir respostas atempadas, diversificadas e qualificadas. Quando os cuidados chegam tarde, aumentam a pressão hospitalar, as altas proteladas, a sobrecarga das famílias e a institucionalização evitável. Uma sociedade longeva precisa de apoio domiciliário, cuidados comunitários, reabilitação, respostas residenciais qualificadas, apoio aos cuidadores e soluções intermédias entre hospital, casa e instituição. Mas a resposta não pode medir-se apenas em camas, vagas ou horas de serviço. A qualidade exige segurança, continuidade, personalização, dignidade, profissionais qualificados e monitorização regular. O critério essencial deve ser o impacto na vida das pessoas: autonomia possível, prevenção de agravamentos, conforto e bem-estar. A pergunta crítica não é apenas quanto custa cuidar; é quanto custa não cuidar a tempo.

3. De que forma a integração entre serviços de saúde e serviços sociais pode ser reforçada para melhorar o acompanhamento das pessoas idosas? Conhece exemplos de boas práticas neste domínio?

A integração entre saúde e apoio social é indispensável para responder à longevidade. Uma pessoa idosa pode concentrar doença crónica, fragilidade, isolamento, dificuldades económicas, barreiras habitacionais e perda de autonomia; se os serviços atuarem separadamente, a pessoa perde-se no sistema. Essa integração exige avaliação global, planos individuais de cuidados, gestão de caso, equipas multidisciplinares, referenciação articulada, sistemas de informação interoperáveis e responsabilidades claras. Há exemplos internacionais úteis: o reablement dinamarquês, orientado para recuperar capacidades; o modelo Buurtzorg, nos Países Baixos, com equipas comunitárias pequenas e autónomas; Singapura, com redes de apoio ao envelhecimento em casa; e a prescrição social, também com experiências em Portugal, que liga cuidados de saúde primários a recursos comunitários. Não são modelos para copiar, mas para adaptar às especificidades portuguesas. O princípio comum é antecipar riscos, preservar autonomia e aproximar os cuidados do território.

4. Que tipo de inovação estratégica considera essencial para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes e preparadas para o envelhecimento da população?

A inovação estratégica passa por substituir políticas reativas por políticas preventivas, preditivas e integradas. Não basta responder à dependência quando ela já está instalada; é preciso identificar riscos mais cedo, preservar capacidade funcional, apoiar famílias e reorganizar cuidados. A inovação digital (telemonitorização, inteligência artificial, interoperabilidade, tecnologias de apoio e habitação inteligente) será decisiva, mas deve estar ao serviço de respostas de proximidade, capazes de levar cuidados, reabilitação, acompanhamento e apoio social ao contexto real de vida das pessoas. É igualmente necessário inovar nos modelos de organização e financiamento, reforçando respostas domiciliárias e comunitárias, apoio aos cuidadores, soluções intermédias entre hospital e casa, novas profissões do cuidado e participação das pessoas mais velhas. O cohousing sénior e os bairros amigos da idade mostram que a inovação em longevidade acontece também na casa, na rua, no bairro, na mobilidade e nas redes de vizinhança.

5. Como avalia a sustentabilidade dos sistemas de saúde e de apoio social face ao envelhecimento demográfico crescente? Que medidas considera prioritárias?

A sustentabilidade dos sistemas de saúde e apoio social será um dos grandes desafios das próximas décadas. O envelhecimento aumenta a procura de cuidados, reduz proporcionalmente a população ativa e pressiona o financiamento público. A resposta, porém, não passa apenas por mais recursos: exige prevenção, integração, melhor organização e avaliação do valor produzido. A prioridade é investir mais cedo, cuidar melhor e criar valor a partir da longevidade, prevenindo doença crónica, fragilidade, isolamento, quedas e perda de autonomia; reforçando respostas domiciliárias e comunitárias; revendo o financiamento dos cuidados de longa duração; e valorizando os profissionais. Japão e Alemanha criaram mecanismos específicos de proteção para a dependência, articulando financiamento público, contribuições sociais e avaliação das necessidades de cuidado. Não são modelos para transposição automática, mas mostram que a dependência não pode continuar a ser tratada como problema residual, suportado pelas famílias e por respostas dispersas.

6. Qual é, na sua opinião, o papel da liderança feminina na transformação e modernização dos sistemas de saúde e sociais? Que contributo específico tem trazido?

A liderança feminina é decisiva na transformação dos sistemas de saúde, sociais e económicos associados à longevidade. Apesar de representarem grande parte da força de trabalho nos cuidados, na saúde e no apoio social, as mulheres continuam sub-representadas na decisão, com perda de conhecimento, experiência e qualidade na governação pública. Na longevidade, a liderança feminina sénior acrescenta uma vantagem específica: a capacidade de articular cuidados, famílias, serviços, territórios, economia do cuidado, saúde mental, fragilidade, isolamento e efeitos das respostas tardias. Esta visão integrada é particularmente relevante num tempo em que os sistemas precisam de prevenir, cuidar melhor, reorganizar recursos e produzir valor social. Por isso, a liderança feminina sénior deve ser reconhecida como capital estratégico. Perfis com experiência de gestão, conhecimento da economia do cuidado, competência clínica e psicossocial em saúde mental e visão intersetorial estão especialmente preparados para ligar saúde, apoio social, famílias, território, sustentabilidade, inovação e qualidade de vida. É esse tipo de liderança que uma sociedade longeva exige.

7. Que políticas ou iniciativas concretas recomendaria para promover um envelhecimento mais ativo, saudável e inclusivo nas próximas décadas?

Promover um envelhecimento ativo, saudável e inclusivo exige atuar antes da dependência. A prioridade deve estar na prevenção da fragilidade, da doença crónica, das quedas, do isolamento e do declínio cognitivo, combinando atividade física, saúde mental, literacia em saúde e boa gestão das doenças crónicas. Mas envelhecer bem depende também das condições de vida: habitação adaptada, mobilidade, acessibilidade, segurança dos espaços públicos, participação social e redes comunitárias. Por isso, precisamos de territórios de longevidade, territórios que cuidam. Para Portugal, o desafio é transformar estes princípios em políticas concretas, valorizando autarquias, setor social, cuidados de saúde primários, cuidadores e redes locais. Uma sociedade longeva não pode desperdiçar conhecimento acumulado: aprendizagem ao longo da vida, mentoria intergeracional, voluntariado qualificado e participação cívica devem fazer parte da resposta.

8. Que principais orientações ou recomendações deixaria aos decisores políticos para melhor responder aos desafios associados à longevidade e ao envelhecimento da população?

A principal recomendação é tratar a longevidade como prioridade transversal de governação. Não pertence apenas à saúde ou à segurança social: atravessa economia, finanças públicas, trabalho, educação, habitação, território, tecnologia, cultura, mobilidade, inovação e coesão social. O envelhecimento não deve ser visto apenas como pressão sobre a despesa pública, mas como transformação estrutural da sociedade. Os países que melhor responderem à longevidade serão os que conseguirem convertê-la em inovação, qualificação, participação e desenvolvimento. Para isso, é necessário investir mais cedo, assumindo a prevenção como investimento estrutural; decidir com base em dados; integrar financiamento, governação e prestação de cuidados; e construir políticas com pessoas idosas, famílias, cuidadores, profissionais, sociedade civil, academia e setores económicos relevantes. O objetivo não é apenas viver mais anos, mas transformar esses anos em autonomia, dignidade, participação, emprego, coesão social e valor para o país.