“A tecnologia deve estar ao serviço das pessoas”

A ciência e a inovação são pilares essenciais para responder aos desafios ambientais, sociais e tecnológicos da atualidade. Nesta entrevista à Liderança no Feminino, a Secretária de Estado da Ciência e Inovação, Helena Canhão, destaca o papel do conhecimento, da diversidade e da liderança inclusiva na construção de uma sociedade mais sustentável, defendendo políticas que aproximem a investigação da inovação e gerem impacto real na vida das pessoas.

O seu percurso académico e institucional tem sido marcado por uma forte ligação à ciência e à saúde. De que forma essa experiência molda hoje a sua atuação enquanto Secretária de Estado da Ciência e Inovação?

A ligação à ciência e à saúde são muito complementares. Enquanto investigadora mantive sempre ativas, a curiosidade e a necessidade de questionar, ao mesmo tempo que sempre me preocupei em não retirar conclusões superficiais ou baseadas em dados pouco robustos. Por outro lado, a investigação que desenvolvi era sobretudo aplicada e muito ligada a gerar evidência que informasse decisões clínicas ou políticas públicas. A formação médica confere o desenvolvimento de outras competências como comunicação, empatia, relação com o outro, trabalho interdisciplinar e em equipa, assim como a necessidade e capacidade de decidir e agir rapidamente (mesmo que por vezes com o risco de não se dispor de todos os dados), mas com grande responsabilidade.

Como professora é muito importante, também, a vertente pedagógica, para apresentar de forma simples problemas complexos e, finalmente, o outro aspeto que é fundamental em todas as áreas, a gestão e liderança de recursos e de pessoas, nomeadamente de equipas, não só no hospital ou na investigação, mas também na direção de uma faculdade de medicina. Todas essas experiências influenciam profundamente a minha atuação enquanto Secretária de Estado da Ciência e Inovação.

Numa secretaria de estado ou num ministério, são decididas medidas e políticas públicas que influenciam a população, que têm de ser feitas ao serviço de quem as utiliza e não de forma cega, sem ter em conta as pessoas. Procuro promover políticas públicas sustentadas em dados, orientadas para resultados e construídas em diálogo com investigadores, instituições científicas, empresas e cidadãos. Ao mesmo tempo, a experiência clínica mantém muito presente a dimensão humana da ciência: por detrás de cada política, de cada projeto e de cada investimento estão pessoas, expectativas e necessidades reais. O serviço público deve estar orientado para as populações, para gerar conhecimento, riqueza e impacto e melhorar de forma transversal a sociedade.

Num contexto global marcado por desafios complexos — ambientais, sociais e tecnológicos — qual considera ser o papel da ciência na construção de uma sociedade mais sustentável e inclusiva?

A ciência é fundamental para compreendermos os grandes desafios da sociedade e para desenvolver respostas adequadas e eficazes. As alterações climáticas, o envelhecimento da população, as desigualdades sociais, a transição energética, a transformação digital ou a prevenção de novas emergências sanitárias exigem conhecimento, capacidade de antecipação, planeamento, organização e cooperação local, nacional e internacional.

A ciência e a investigação permitem-nos identificar os problemas, avaliar as diferentes opções e tomar decisões mais informadas. A inovação permite transformar esse conhecimento em soluções, produtos, serviços e políticas com impacto económico, ambiental, cultural e social.

Uma sociedade deve ser sustentável, democrática e inclusiva. O progresso científico, social, tecnológico e cultural deve beneficiar todas as pessoas e todos os territórios. Isso implica garantir o acesso à educação, ao conhecimento, reduzir desigualdades, envolver os cidadãos e avaliar os impactos sociais, ambientais e éticos da inovação. É muito importante criar mais riqueza, não para ter uma sociedade mais capitalista, mas porque a pobreza e as desigualdades só se combatem com mais riqueza distribuída.

O bem-estar, a justiça, a transparência e a confiança nas instituições são fundamentais, porque promovem a inclusão, sustentabilidade e a resiliência das sociedades.

Portugal tem vindo a reforçar o investimento em ciência e inovação. Quais são as principais prioridades estratégicas que estão atualmente a orientar esta agenda?

Sim, o Governo tem vindo a reforçar o investimento em ciência e inovação, não só no seu financiamento, mas também na revisão do regime jurídico em vigor para que seja mais favorável ao seu desenvolvimento estratégico, como é o caso da nova Lei da Ciência e da Inovação. Foi também criada uma Agência que promove a implementação e operacionalização mais ágil de um novo papel da Ciência no nosso país. A reforma estrutural do sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação (SNCTI), tem como objetivo torná-lo mais integrado, com uma organização mais simples e estruturada, mais estável e mais orientado para o impacto.

Outra das prioridades é o funcionamento da Agência para a Investigação e Inovação, a AI2, que aproxima a investigação científica da inovação e permite uma atuação coerente ao longo de toda a cadeia de valor do conhecimento, desde a investigação fundamental até à sua valorização cultural, ambiental, económica e social. Outro dos grandes objetivos da AI2 é prestar um serviço focado nas necessidades da comunidade, desenvolver processos simplificados e ágeis, com independência e rigor nas avaliações de que é responsável.

Estamos também a trabalhar num novo modelo de financiamento plurianual e na definição de domínios estratégicos nacionais. Estes domínios concentram competências e mobilizam pessoas, instituições e empresas a responder a desafios relevantes para Portugal, preservando simultaneamente o apoio à investigação de excelência orientada pela curiosidade dos investigadores. Esta agenda reforça a excelência e a competitividade, permitindo captar mais financiamento europeu e internacional, reforça também a soberania tecnológica, a resiliência e a capacidade de Portugal participar nas principais redes europeias e internacionais e na resolução de problemas regionais, nacionais e globais.

Estamos a desenvolver este trabalho no nosso país, ao mesmo tempo que em Bruxelas está a ser discutido o novo programa-quadro europeu para 2028-2034. Temos por isso a grande oportunidade de planear, alinhar e estar mais bem preparados para os desafios que enfrentamos na Europa e globalmente.

Como avalia a capacidade do ecossistema científico nacional (universidades, centros de investigação e empresas) para transformar conhecimento em impacto económico e social?

Portugal construiu, nas últimas décadas, uma comunidade académica e científica muito qualificada, internacionalizada e com uma produção científica re- conhecida. Melhorámos também muito a educação e capacitação da nossa população. Temos universidades, laboratórios, centros de investigação, centros tecnológicos e empresas com competências muito relevantes.

O desafio está em transformar, de forma mais robusta, esse conhecimento em impacto. Existem bons exemplos de colaboração entre ciência e empresas, criação de novas empresas de base tecnológica, desenvolvimento de soluções clínicas, inovação industrial e valorização da propriedade intelectual.

Contudo, esses exemplos ainda não são em número suficiente e sobretudo, não têm de forma sistemática, a escala necessária. Precisamos de melhorar a ligação entre as diferentes entidades, reduzir a fragmentação, reforçar a capacidade de execução e criar condições para que o conhecimento atravesse mais rapidamente as várias etapas, desde o laboratório até à aplicação concreta, mas também que reforcea comunicação entre as empresas e entidades da administração publica ou do terceiro setor assim como com as universidades e centros de investigação. O impacto da ciência não é apenas económico, é também social, ambiental, cultural e institucional. Uma inovação pode traduzir-se numa empresa ou numa patente, mas também numa política pública mais eficaz, num melhor tratamento médico, numa tecnologia ambiental ou numa resposta mais justa às necessidades da população.

A transferência de conhecimento e a ligação entre academia e tecido empresarial continuam a ser desafios recorrentes. Que medidas considera essenciais para acelerar este processo?

A transferência de conhecimento exige relações de confiança, previsíveis e estáveis, mas também necessidades, expectativas e até linguagem comum e/ou alinhada entre universidades, centros de investigação, centros tecnológicos ou de interface, empresas e administração pública.

É essencial desenvolver instrumentos que promovam essa interação. A AI2 tem aqui um papel fundamental, sem prejuízo de outros atores públicos, privados e do setor social que desenvolvem atividades nestas áreas. Assim, é muito importante apoiar projetos colaborativos de médio e longo prazo, reforçar as estruturas de valorização do conhecimento e reconhecer o papel dos profissionais que trabalham na gestão de ciência, transferência de tecnologia, propriedade intelectual e desenvolvimento de negócio. Igualmente fundamentais são os mecanismos de financiamento que acompanham todo o percurso da inovação. Muitas ideias promissoras perdem-se na passagem entre a investigação e a demonstração, ou entre o protótipo e a entrada no mercado. É necessário reduzir estas falhas, frequentemente designadas como “vales da morte” da inovação. A mobilidade de pessoas entre Academia e empresas também deve ser facilitada. Um investigador deve poder colaborar com uma empresa, criar uma solução ou participar numa nova empresa de base científica, sem que isso represente uma penalização na sua carreira científica académica. Os estudantes de doutoramento e o trabalho de doutorados em ambiente fora da academia é fundamental, porque transportam consigo conhecimento, metodologias e valor que podem beneficiar as entidades e a sociedade onde se inserem. Por outro lado, são criadas oportunidades de carreira alternativas à Academia, que não têm capacidade, nem devem, acolher todos os que formam. Por último e já o disse antes, é fundamental simplificar procedimentos, aumentar a agilidade e a eficiência dos processos, garantir maior previsibilidade do financiamento e avaliar os programas pelo impacto efetivamente produzido.

Enquanto líder feminina numa função de grande responsabilidade, que importância atribui à diversidade e à inclusão nos processos de decisão e inovação científica?

Não tenho qualquer dúvida que a diversidade melhora a qualidade das decisões. E esta diversidade deve ocorrer a diferentes níveis, com pessoas envolvidas, participativas, a quererem fazer parte da solução e a contribuírem com as suas diferentes opiniões, características, passados, vivências e experiências para o objetivo comum. As equipas e os grupos que são constituídos por pessoas com diferentes idades, géneros, origens, educação, nível socioeconómico, percursos, experiências e perspetivas diferentes, identificam problemas que poderiam passar despercebidos e encontram soluções mais completas.

Na ciência, na inovação e nos processos de decisão, a diversidade é particularmente importante. As prioridades de investigação, os dados utilizados, as pessoas incluídas, a metodologia da experimentação, os modelos tecnológicos e os produtos desenvolvidos podem reproduzir e amplificar desigualdades existentes, quando não integram diferentes perspetivas. Por outro lado e numa outra perspetiva, temos ainda mulheres altamente qualificadas que não chegam, na mesma proporção, às posições de maior responsabilidade científica, académica, empresarial ou institucional. A perda de talento, por qualquer tipo de discriminação, prejudica as próprias organizações e limita a capacidade de inovação da sociedade.

Promover a igualdade significa assegurar oportunidades reais, critérios transparentes, valorização pelo mérito, conciliação entre vida profissional e familiar e ambientes de trabalho saudáveis e livres de discriminação. Significa também garantir que todos têm acesso e a oportunidade de participar nos espaços onde se definem prioridades, se distribuem recursos e se tomam decisões.

De que forma a liderança feminina pode contribuir para uma visão mais holística e sustentável na definição de políticas públicas de ciência e inovação?

Considero que não existe uma única forma de liderança feminina, tal como não existe uma única forma de liderança masculina. Cada pessoa lidera a partir da sua educação, formação, experiência, da sua personalidade e dos valores que defende. Ainda assim, a presença de mais mulheres nos processos de decisão alarga as perspetivas que são consideradas e contribui para políticas mais representativas da sociedade. Lembrar que as mulheres transportam experiências profissionais e pessoais que, durante muito tempo estiveram e atualmente continuam a estar nalgumas sociedades ou ambientes, ausentes dos espaços de poder e decisão.

Uma boa liderança exige capacidade de escuta, sentido de justiça, cooperação, visão de longo prazo e responsabilidade pelas consequências das decisões. Deve também ser competente, exigente, ética e inclusiva, independentemente da idade ou género do líder.

O talento jovem é um dos pilares do futuro da ciência. Que estratégias estão a ser desenvolvidas para atrair, reter e valorizar investigadores em Portugal?

Atrair e reter talento exige um sistema científico com condições profissionais previsíveis, oportunidades de desenvolvimento e ambientes científicos estimulantes. Não basta formar bons investigadores, é necessário criar condições para que possam desenvolver as suas carreiras em Portugal. Um dos objetivos da AI2 é tornar Portugal um país reconhecido pelas suas condições para investigar e inovar. A estabilidade do financiamento é muito importante e por isso estamos a trabalhar num modelo plurianual que permita às instituições planear melhor, contratar de forma mais responsável e desenvolver projetos com horizontes temporais adequados. Mas, é também fundamental ter um sistema científico robusto, para que o país seja competitivo na captação de financiamento diversificado e adequado às necessidades dos investigadores. O alinhamento com o próximo programa-quadro plurianual europeu é fundamental. É igualmente necessário tornar as carreiras científicas mais atraentes, diversificadas e valorizadas. Nem todos os doutorados seguirão no futuro uma carreira científica ou académica tradicional. Estamos a desenvolver o enquadramento jurídico para criar percursos na investigação, na gestão de ciência, na valorização do conhecimento, nas empresas, nos centros tecnológicos, na administração pública e no empreendedorismo. A internacionalização continua a ser decisiva. Queremos que os nossos jovens investigadores tenham experiências no estrangeiro, participem em redes internacionais e possam regressar a Portugal com condições para aplicar o conhecimento adquirido. A mobilidade deve representar circulação de talento e não perda permanente de talento. É também importante envolver os jovens na definição das políticas científicas, porque serão eles a executar e a desenvolver o sistema que estamos hoje a construir. Temos investido na promoção dos doutoramentos desenvolvidos quer em ambiente académico, quer em não académico. E defendemos carreiras de investigação com perfis variáveis ao longo da vida e possibilidade de desenvolvimento de atividades docente, consultoria ou mais relacionadas com inovação e empreendedorismo. Estamos alinhados com os outros esta- dos-membros da União Europeia, na promoção do acolhimento de investigadores que pretendem desenvolver a sua atividade na Europa e mais concretamente em Portugal.

Num mundo cada vez mais digital e orientado por dados, como antevê o equilíbrio entre tecnologia, ética e impacto social no desenvolvimento científico?

O século XX primeiro e o século XXI atualmente, têm sido caracterizados por avanços científicos e tecnológicos surpreendentes. Nas últimas duas décadas, as descobertas científicas, desenvolvimento tecnológico, transição digital e generalização da utilização da inteligência artificial, têm vindo a mudar a forma como vivemos e nos relacionamos.

Como princípio fundamental, a tecnologia deve estar ao serviço das pessoas. Esta condição é particularmente importante porque há um risco enorme de aumento das desigualdades. A inteligência artificial, a automação, os grandes volumes de dados, as novas biotecnologias e outras tecnologias emergentes têm um potencial imenso de transformar a educação, trabalho, lazer, saúde, comunicações, transportes, administração publica, indústria, economia e sociedade em geral e por isso devem ser removidas as barreiras ao seu acesso. Ao mesmo tempo, levantam questões relacionadas com privacidade, segurança, transparência, enviesamentos da informação, substituição de trabalho humano como o consideramos atualmente e acesso equitativo aos benefícios da investigação e inovação. Os considerandos éticos são essenciais e não devem ser considerados apenas no final do processo. A inovação ocorre em ambientes que a promovem, mas os processos devem ser responsáveis e o acesso aos seus benefícios deve ser inclusivo. Mais uma vez aqui, a necessidade da participação de equipas multidisciplinares e diversas que reúnam cientistas, engenheiros, profissionais das ciências sociais e humanas, juristas, especialistas em ética e representantes da sociedade.

Na Europa e em Portugal, o quadro legislativo tem estes aspetos em conta, mas estamos a trabalhar para que a articulação entre investigação, inovação, investigadores, inovadores e empreendedores seja cada vez maior, ao mesmo tempo que o benefício desse esforço tenha cada vez mais impacto na vida e bem-estar da população. Também muito importante é aumentar a literacia científica e digital e desenvolver mecanismos de responsabilização. A confiança dos cidadãos é um ativo essencial para a inovação e só pode ser preservada através do conhecimento, da transparência e da responsabilidade.

Olhando para o futuro, que legado gostaria de deixar enquanto Secretária de Estado da Ciência e Inovação e que mensagem deixaria às novas gerações?

Quero contribuir para construir um sistema que valorize a excelência e a liberdade científica, mas que também tenha capacidade para mobilizar recursos em torno dos grandes desafios nacionais e internacionais. Um sistema menos fragmentado, com maior previsibilidade, melhor articulação entre instituições e empresas e mais oportunidades para os jovens e para reter talento. Em resumo, um sistema científico e de inovação mais estável, capaz de produzir mais conhecimento, bem-estar e riqueza, e mais capaz de transformar conhecimento em desenvolvimento económico, social e humano.

A educação, ciência e conhecimento são fundamentais para combater a desinformação e melhorar a democracia. Um país que promove a inovação, focado nos resultados e no impacto, está mais preparado para combater a pobreza e as desigualdades. Gostaria também de reforçar a ideia de que a ciência e a inovação devem ser elementos centrais da estratégia de desenvolvimento de Portugal. O crescimento económico, a melhoria dos serviços públicos, a resposta aos grandes desafios da atualidade, a competitividade das empresas e a qualidade de vida da população dependem da nossa capacidade de produzir e aplicar conhecimento.

Às novas gerações de investigadores, inovadores e líderes deixaria uma mensagem de confiança e responsabilidade. A ciência exige curiosidade, rigor, persistência, resiliência e capacidade de trabalhar em equipa. A liderança exige humildade para ouvir e melhorar, coragem para decidir e compromisso com o interesse coletivo. O futuro constrói-se todos os dias, com conhecimento, criatividade e sentido de missão. Acredito que as novas gerações têm a capacidade de fazer mais e melhor, de transformar desafios em oportunidades e de contribuir para um Portugal mais inovador, mais competitivo e mais justo.