Há mulheres que não contam apenas histórias, iluminam o que nelas permanece invisível. Paula Lagarto é uma dessas vozes raras: começou no jornalismo por curiosidade, ficou pela comunicação por responsabilidade e transformou cada etapa do percurso numa forma de ler o mundo com mais profundidade. Entre redações, ministérios e consultoria estratégica, tornou‐se uma intérprete do nosso tempo, alguém que acredita que comunicar não é apenas informar, mas mobilizar, influenciar e construir futuro.
No Dia Internacional da Mulher, celebram‐se percursos que não se limitam a ocupar espaço: transformam‐no. Histórias de mulheres que, pela força da curiosidade, da disciplina e da lucidez, moldam a forma como entendemos o mundo. Entre essas histórias, destaca‐se a de uma profissional que começou no jornalismo com a convicção íntima de que compreender é sempre o primeiro passo para comunicar. A sua primeira intenção era estudar História, movida pelo fascínio pelos contextos, pelas causas e pelas continuidades invisíveis que explicam os acontecimentos.
“Sempre me interessaram os contextos, as causas, as continuidades invisíveis que explicam os acontecimentos”, recorda. Mas quando escolheu jornalismo, percebeu que não se afastava da vocação inicial. “Percebi cedo que não estava a trair a vocação: passei a contar a História em tempo real.”
Essa descoberta marcou o início de uma relação profunda com
a comunicação. Do jornalismo trouxe uma herança que nunca abandonou: a importância do enquadramento, a escuta ativa e o rigor. Para ela, nenhuma his‐ tória existe isolada e nenhuma mensagem é relevante se não responder à pergunta essencial: “porquê agora?”. Aprendeu a ouvir com intenção, a confirmar antes de afirmar, a distinguir o ruído do que verdadeiramente estrutura um acontecimento. E aprendeu, sobretudo, que comunicar tem consequências. “As palavras moldam perceções, influenciam
e constroem memória coletiva. Essa consciência nunca me aban‐ donou. Comunicar é sempre um exercício de responsabilidade.”
A passagem pela Agência Lusa foi uma escola de exigência. Ali, o rigor não era uma escolha, mas um método. “O rigor não é uma mera escolha editorial, é um método inegociável. A clareza não é apenas estilo, é um dever profissional.” A noção de tempo ganhou outra dimensão: chegar primeiro não bastava; era preciso chegar de forma correta. A urgência nunca podia comprometer a precisão. Hoje, quando trabalha com organizações que procuram alinhar reputação, influência e estratégia, reconhece que esses princípios continuam a ser estruturantes. Cada palavra transporta intenção, cada frase define enquadramento, cada silêncio tem significado. E o tempo mantém o seu peso: saber quando intervir é tão importante quanto saber o que dizer.
A experiência em vários ministérios trouxe‐lhe uma visão singular sobre a comunicação pública. Num contexto político e social exigente, comunicar é navegar entre expectativas, interpretações e escrutínio permanente. “Significa explanar decisões complexas sem simplificações artificiais, assumir transparência e nunca perder de vista os principais destinatários: os cidadãos.” É um exercício de equilíbrio delicado: clareza sem simplismo, responsabilidade democrática sem opacidade, respeito institucional sem rigidez. A comunicação pública exige uma consciência permanente de que cada mensagem pode ter múltiplas leituras e impactos, e que a confiança é um bem frágil, construído ao longo do tempo e perdido num instante.
Ao longo da sua carreira, consolidou a convicção de que a comunicação só transforma quando nasce de dentro para fora. Uma narrativa autêntica, diz, nasce da identidade real da organização — da sua cultura, visão e valores — e não apenas da necessidade de responder a uma crise ou a um ciclo mediático. “A narrativa reativa responde à urgência. A narrativa autêntica sustenta‐se na coerência e na prática, e a diferença revela‐se ao longo do tempo.” Quando a cultura interna é diferente da mensagem externa, a dissonância surge inevitavelmente. Quando há alinhamento, a comunicação deixa de ser defensiva e passa a ser transformadora.
Na LLYC, onde trabalha na interseção entre reputação, influência e estratégia, observa que o alinhamento entre visão, cultura e posicionamento rara‐ mente é um ponto de partida. É, sobretudo, um percurso. As organizações são sistemas complexos, com ritmos distintos de apropriação e interpretação dos elementos estratégicos. A visão pode estar claramente definida e, ainda assim, exigir tempo e diálogo para se traduzir nos comportamentos quotidianos.
A cultura, mesmo quando vivida de forma autêntica, pode beneficiar de maior explicitação para ganhar escala e coerência. E o posicionamento, por mais ambicioso que seja, só se consolida quando incorporado nas decisões e nas relações com os diferentes stakeholders. “O alinhamento não é apenas um exercício técnico, mas um processo colaborativo e contínuo, que depende de escuta, coerência e compromisso partilhado ao longo do tempo.”
Para que os líderes de hoje consigam comunicar com impacto real, considera essenciais três competências: estrutura, inteligência emocional e determinação.
A estrutura permite organizar ideias, definir prioridades e compreender o propósito que sustenta cada mensagem. A inteligência emocional não é apenas sensibilidade interpessoal, mas a capa‐ cidade de ler o contexto, interpretar expectativas e antecipar o impacto das decisões nos diferentes públicos. E a determinação traduz‐se na disponibilidade para assumir posições, explicar escolhas e manter coerência ao longo do tempo. “Hoje, a liderança afirma‐se menos pela eloquência isolada e mais pela consistência entre discurso e ação.”
O papel da mulher na comunicação e nos assuntos corporativos tem ganho visibilidade, mas o progresso, embora significativo, não elimina desafios persistentes. Há mais mulheres em posições de decisão, e a diversidade deixou de ser periférica para integrar a agenda estratégica das organizações. Ainda assim, subsistem barreiras subtis. “Muitas mulheres continuam a enfrentar níveis de escrutínio mais elevados e expectativas ambivalentes quanto ao seu estilo de liderança.” A margem para erro tende a ser percebida como mais reduzida, o que gera pressões adicionais. A consolidação desta evolução depende de práticas consistentes, critérios transparentes e oportunidades equitativas ao longo do percurso profissional.
Para as jovens profissionais que hoje iniciam carreira na comunicação — seja no jornalismo, no setor público ou no corporate affairs — deixa uma reflexão que considera transformadora: cultivar a profundidade num tempo marcado pela aceleração permanente. “Antes de comunicar, é essencial compreender. E a compreensão exige tempo, curiosidade e rigor.” Investir na leitura do contexto, estudar História, desenvolver pensamento crítico e exercitar a escuta ativa são práticas que ampliam a capacidade de análise e fortalecem a credibilidade. Porque comunicar não é apenas informar; é mobilizar, influenciar e construir futuro. E esse futuro, acredita, constrói‐se com coerência, integridade e uma atenção permanente ao impacto das palavras no mundo que habitamos.





