Num tempo em que a liderança exige mais do que competência técnica, a edição 88 da Revista Liderança no Feminino traz uma conversa que desafia paradigmas e ilumina caminhos. Sara Torres — conhecida como Miss Chia — partilha a história de uma mulher que transformou disciplina em propósito, dor em consciência e hábitos em alta performance. Da esgrima federada ao diagnóstico oncológico, da maternidade à reinvenção profissional, Sara revela como a consistência, a visão estratégica e a coragem de se escolher todos os dias podem redefinir não apenas a saúde, mas a própria identidade. Uma entrevista que inspira, provoca e recorda que a verdadeira força nasce quando aprendemos a reconstruir-nos com intenção.
Há histórias que não começam no óbvio. Histórias que não seguem a linha reta que tantas vezes imaginamos quando pensamos em sucesso. A de Sara Torres é uma dessas narrativas que desafiam expectativas. Não porque tenha sido fácil — mas porque foi profundamente humana, feita de escolhas, quedas, reconstruções e uma coragem silenciosa que se tornou método, missão e identidade.
Hoje, é consultora de lifestyle e nutrição, mentora, speaker e referência na transformação de hábitos. Mas antes disso, foi estudante de Relações Internacionais, esgrimista federada, profissional de marketing, mãe recente e, de repente, paciente oncológica. Cada capítulo, aparentemente desconexo, tornou-se peça essencial de um puzzle que só agora, com distância e maturidade, revela a sua coerência.
“Não trabalho apenas alimentação, trabalho comportamento humano, decisões e liderança pessoal”, diz. E é precisamente aí que a sua história ganha força: na capacidade de integrar mundos que, à primeira vista, não se tocam — mas que nela se encontram.
A visão sistémica que nasceu fora da nutrição
Quando fala do seu percurso académico, Sara sorri com a serenidade de quem já ouviu muitas vezes a mesma pergunta: “Como é que alguém que estudou Relações Internacionais e fez um MBA em Gestão e Marketing acaba na nutrição e na saúde?” A resposta é simples, mas poderosa. “As Relações Internacionais deram-me uma visão sistémica das pessoas e dos contextos; o MBA trouxe estratégia, comunicação e gestão. Hoje aplico exactamente essa combinação.”
A nutrição, para Sara, nunca foi apenas sobre comida. Foi sempre sobre pessoas. Sobre escolhas. Sobre comportamento. Sobre a forma como cada indivíduo se relaciona consigo próprio e com o seu corpo. E, nesse sentido, o seu percurso académico não foi um desvio — foi preparação. “A mudança de hábitos exige visão estratégica — e é aí que todo o meu percurso faz sentido.”
A esgrima: disciplina, foco e a arte de não reagir por impulso
Muito antes de falar de metabolismo, inflamação ou equilíbrio hormonal, Sara aprendeu outra linguagem: a da disciplina. A da precisão. A do foco absoluto. A esgrima, praticada durante anos a nível federado, moldou-lhe o carácter. “Na esgrima aprendemos que não vence quem reage por impulso, mas quem mantém clareza mesmo sob pressão.”
Essa clareza tornou-se uma marca da sua abordagem. Não há dramatismos, não há promessas milagrosas, não há atalhos. Há método. Há consistência. Há a convicção profunda de que “resultados consistentes não vêm de momentos extraordinários, mas da repetição de pequenas decisões bem feitas”. É esta filosofia que hoje transmite a clientes, equipas e audiências.
O diagnóstico que mudou tudo
Há momentos que dividem uma vida em duas partes: antes e depois. Para Sara, esse momento chegou poucos meses após ser mãe, quando recebeu o diagnóstico de cancro do colo do útero. “Foi um período exigente e profundamente transformador.”
A maternidade recente, o medo, a incerteza, a fragilidade física — tudo se misturou num turbilhão que a obrigou a parar, a olhar para dentro e a repensar prioridades. E como se não bastasse, enfrentou também uma urticária crónica idiopática que a acompanhou durante anos. Foi aí que percebeu, na prática, aquilo que mais tarde ensinaria a tantos outros: o corpo fala. E quando fala, pede atenção.
“Percebi que a alimentação tinha um impacto real na forma como o meu corpo respondia e recuperava.”
Foi essa descoberta que a levou a aprofundar estudos em Alimentação e Dietética Clínica. Não por moda. Não por tendência. Mas por necessidade. Por sobrevivência. Por verdade.
Da dor ao propósito
A doença não a definiu — mas redefiniu o seu caminho. “A alimentação não era apenas um complemento — era uma base.” A partir daí, tudo mudou. A curiosidade transformou-se em estudo. O estudo transformou-se em método. O método transformou-se em missão. “O meu propósito nasceu quando percebi que mudanças simples, quando consistentes, podem transformar profundamente a vida.”
Hoje, essa missão é o centro do seu trabalho: ajudar pessoas a reencontrarem energia, equilíbrio, clareza e saúde através de escolhas sustentáveis.
O método que integra ciência, performance e humanidade
Com especializações em Personal Diet, Nutrição Desportiva, Anti-aging e Coaching de Nutrição, Sara criou um método que não separa corpo e mente — integra-os. “Vejo estas áreas como peças do mesmo puzzle.”
A nutrição clínica dá a base.
A nutrição desportiva optimiza energia.
O anti-aging traz prevenção.
O coaching transforma conhecimento em ação.
“Quando corpo, mente e hábitos estão alinhados, os resultados deixam de ser temporários e passam a fazer parte da identidade da pessoa.” É esta visão integrada que a distingue.
O maior desafio das pessoas? Não é falta de informação. É excesso.
Sara observa um padrão claro no trabalho com clientes:
“O maior desafio não é falta de informação — é o excesso dela.”
Vivemos numa era de dietas rápidas, métodos milagrosos, gurus digitais e promessas instantâneas. As pessoas chegam cansadas, frustradas, saturadas de tentar.
“Vejo muito o pensamento tudo‑ou‑nada e expectativas pouco realistas.”
O seu trabalho é, muitas vezes, devolver simplicidade ao que se tornou complexo. Ensinar que a mudança não acontece quando encontramos a solução perfeita, mas quando começamos com o que é possível hoje.
A televisão como ponte para a prevenção
A presença em programas televisivos em Portugal e no Brasil ampliou a sua voz — e a sua responsabilidade. “A televisão permitiu tornar a mensagem mais acessível e próxima.”Para muitas pessoas, aquele é o primeiro contacto com temas de saúde, prevenção e autocuidado. E Sara sabe o peso disso. “Sinto uma grande responsabilidade em comunicar de forma simples, mas rigorosa.” A televisão não é palco. É serviço público.
A mensagem para as mulheres: força não é ausência de fragilidade
Nas suas palestras, a superação pessoal é um tema recorrente. E não por acaso. Sara fala a partir da experiência, não da teoria.
“Força não significa ausência de fragilidade. Significa continuar, mesmo quando ainda estamos a reconstruir‑nos.” É uma mensagem que toca especialmente mulheres que, tantas vezes, se habituaram a colocar-se em último lugar. “O equilíbrio constrói-se em pequenas escolhas diárias.” E quando uma mulher volta a escolher-se — sem culpa — algo muda. Algo renasce. Algo se alinha.
A história que se tornou missão
A vida de Sara Torres não é uma linha reta. É uma espiral de aprendizagens, quedas, superações e escolhas conscientes. É a prova de que a dor pode ser ponto de viragem, que a disciplina pode ser liberdade e que a saúde é, acima de tudo, um ato de liderança pessoal.
Hoje, Miss Chia não é apenas uma marca. É um movimento. Uma filosofia. Uma forma de estar. E a sua história lembra-nos que transformar hábitos não é sobre perfeição — é sobre consistência. Não é sobre restrição, é sobre consciência. Não é sobre estética, é sobre identidade.
Porque, como ela diz tantas vezes, com a serenidade de quem viveu na pele o que ensina:
“O corpo responde melhor à consistência do que aos extremos.”
E talvez seja essa a grande lição: a verdadeira alta performance começa quando aprendemos a cuidar de nós com respeito, estratégia e humanidade.





