O ano de todos os desafios das Lideranças Saudáveis

Rita Veloso, Vogal Executiva do Conselho de Administração do Centro Hospitalar e Universitário do Porto

2022 foi em particular, o ano de todos os desafios das nossas lideranças nas mais diversas áreas, como chefia ou como colaboradora, como colega, como mãe, como filha, como esposa, como cidadã, como Pessoa.

Todos estes nossos papéis requerem lideranças saudáveis, equilíbrio, bom senso. Vivemos dois anos que, esperamos, sejam irrepetíveis com a chegada da Pandemia, e que não nos deixarão indiferentes. Efetivamente nenhum líder estava preparado para o que viria depois. Quando a pandemia parecia adormecia, acorda a guerra na Ucrânia e que não nos deixou levantar, deixando marcas até hoje profundas. Na economia, na responsabilidade social, na nossa segurança.

Conhecemos hoje um mundo muito mais exigente, no qual apesar de todo o impulso tecnológico, a importância da individualidade de cada Pessoa em todo o ecossistema atingiu o seu limite máximo.

Todos sabemos o que sentimos durante todo este tempo e muitas vezes não conseguimos simplesmente explicar.

Para as instituições e empresas tem sido um desafio enorme “competir” com o sofá de casa das suas Pessoas, tendo que ser criativas em espaços, momentos para que a vontade de regressar, ainda que em parte, ao trabalho físico, ainda exista – caso contrário, onde ficará a cultura tão própria e carismática de cada instituição?

Para os adolescentes, o atraso provocado pelo isolamento em casa, pôs a nu o tema da saúde mental nos jovens e jovens adultos. E nos bebés geração “máscara”, não saberemos em concreto o impacto no desenvolvimento de algumas competências sociais que começam no dia do seu nascimento e que farão deles próprias Pessoas com necessidades, propósitos e formas de liderar um dia, diferentes.

Para os que trabalham em instituições de saúde, este impacto, não pretendendo dizer ter sido maior, foi de certo diferente. Concretizando, para mim em particular, como para  muitos outros colegas, não soubemos o que foi ficar um único dia em casa em teletrabalho. A rotina casa-hospital parece ter contribuído para um certo equilíbrio, mas que trouxe a seu tempo as suas consequências. Em 2021, em pleno pico pandémico, exatamente no local onde todos os dias pelas 08:00 estaciono o meu carro, enfrentava a fila dos “sacos pretos” transportados em maca e que todos sabíamos o que representava. Diariamente tentamos motivar e inspirar as nossas Pessoas, quando nós próprios precisamos de ajuda.

Nos hospitais estamos sempre focados nos doentes que nos chegam de fora e por vezes ignoramos as nossas Pessoas que também possam estar doentes, mentalmente doentes e a sofrer em silêncio. Lidamos com temas sensíveis como o suicídio (e tentativas de), assistimos a atos de quase desespero provocados pelo burnout e tentamos seguir em frente acreditando que é nosso dever gerir a crise, mas preparar o futuro pelas nossas Pessoas, com as nossas Pessoas para as nossas Pessoas.

Por isso o meu 2022 começou com a procura de um equilíbrio interior e conciliação da vida profissional e familiar, tão essencial ao nosso bem-estar. Esta procura passou por encontrar na  psicoterapia as ferramentas necessárias para os desafios que aí vinham. E eram, e são, tantos!

Este tema da saúde mental não pode nem deve continuar a ser um estigma ou assunto não falado dentro das nossas Organizações. A minha motivação clara nesta procura de ajuda foi:

Quando tudo na vida das nossas Pessoas falha, a nossa liderança saudável não pode falhar.

Cedo tomei consciência de que não se é líder por decreto ou mera nomeação. Para os cargos designados formalmente atribuem-se outras designações que todos conhecemos (umas mais modernas do que outras): chefe, diretor, responsável e respetivos estrangeirismos: chief, director, head.

Todos estes cargos topo requerem skills que vão muito além da formação base, formação contínua, mba´s, congressos, livros, artigos. E que não se ensinam, sem ser na verdade sentidas e experienciadas. Aliás, atrevo-me a dizer que todos, enquanto gestores, seremos bastante conhecedores dos conceitos e boas práticas de uma boa liderança. Os nossos extensos currículos demonstram isso mesmo.

Várias vezes me questionam qual o melhor curso para investir se quisermos aprender mais sobre como gerir bem as nossas Pessoas. Ironicamente por vezes tenho a tentação em responder “quase todas as Pessoas em lugares como o meu fizeram a mais variadíssima formação executiva nestas áreas e parece que na hora de agir o vulgo “bom-senso” não aparece nas suas ações, fazendo perder na prática as longas horas (e euros) de investimento em formação.”

Estaremos todos no mesmo ponto de partida para liderar? E para nos auto-liderar? E para procurar ser um líder saudável?

No limite, a derradeira questão poderia ser, estarei eu disponível para seguir o líder que eu sou? Seria eu próprio influenciado por “ele”? Antes de mais, influenciar alguém é motivá-lo a fazer algo, por vezes, nunca feito. E motivar, por sua vez, é mais do que dar ânimo: é dar um propósito, propósito para trabalhar a favor de todos os níveis da organização, aprendendo com as pessoas, independente da hierarquia. Quem me conhece sabe, nos lugares por onde passo (e efetivamente já foram alguns), encontro-me sempre com Pessoas extraordinárias e que me fazem ganhar o dia com um simples café logo pela manhã, e as curtas, mas necessárias conversas de 5 minutos sobre a vida quotidiana, nossa e dos que nos rodeia, necessárias porque nos torna genuínos e nos mantêm saudáveis.

Há uns meses uma Pessoa, líder, que muito respeito, me dizia, na presença da minha Francisca,  que escolher ser médica ou médico por profissão poderá conter em si um lado altruísta, mas também, e se calhar em maior parte, um lado egoísta. Assim também o será quando decidimos manter-nos em lideranças que nos sugam a energia, mas nos fazem incansavelmente felizes. Poder mudar a vida para melhor de uma qualquer outra Pessoa, próxima ou perfeita desconhecida, faz-nos inevitavelmente bem e fazemo-lo, estou certa, por esse mesmo motivo também: fazer bem às outras Pessoas, faz-nos bem a nós próprios. Chegar a casa no final de mais um dia e sentirmos no seu ímpeto a expressão “missão cumprida” é efetivamente um vício e que, assim queiramos, não terá fim.

Mas como encontrar equilíbrio quando algo falha na vida das nossas Pessoas e sentimos que a nossa liderança não lhes poderá falhar também?

Todos nós já tivemos nas nossas equipas Pessoas que desistiram ou encontraram uma alternativa melhor. Penso nisso de forma séria cada vez que sou surpreendida (às vezes nem assim tão surpreendida) por esses “abandonos”? E penso para mim, eu que já troquei várias vezes de projeto e de equipa, estes percursos nem sempre são da responsabilidade de quem lidera. Mas alguns serão. Não tenho qualquer dúvida. E teremos Pessoas que desistem (pelos mais variadíssimos motivos), mas que necessariamente não abandonam as nossas equipas, e é precisamente estas que devemos tentar recuperar.

Recordo o dia em que recebo uma chamada de um dos meus coordenadores, a A. tinha acabado de ingerir medicação em excesso durante a hora de serviço. Estava paralisada, sem qualquer reação, e irredutível em não contar o que havia tomado. Nesse momento voei a maior e mais rápida corrida dentro daquele meu hospital. Sabia, porque estava atenta e os colegas também, que a sua vida em casa estava numa fase mais que difícil para si e para os seus. Sabia porque sempre me preocupei bastante com a felicidade e o equilíbrio das minhas Pessoas. E porque sabia exatamente o que se estava a passar, estaria em melhores condições de ajudar. Era hora de agir e transportar a nossa função muito para além das portas da nossa Organização. A. recuperou, agiu com coragem e seguiu em frente. Sentiu necessidade de mudar de rotina, saiu da nossa equipa e uns anos mais tarde regressou. Recebia com a mesma energia e enorme felicidade. A sua vida tinha ganho novo sentido outra vez.  Foram vários, muitos, os momentos em que fui “chamada” a agir – não só como líder, mas como comum Pessoa com especial sentido de responsabilidade sobre os que me rodeiam. E várias as vezes que os outros que me rodeiam no trabalho, tiveram também eles essa função em mim. É um círculo virtuoso, este dar e receber de equilíbrio e energia.

Efetivamente, o grande desafio nos dias de hoje é estar disponível para os outros, mas também para nós, procurando um equilíbrio entre o que nos preocupa, o que nos causa ansiedade, o que nos cansa e entre o que nos orgulha, nos motiva e nos enche o coração. O trabalho não pode ser uma exceção. E devemos estar atentos aos primeiros sinais de algum desequilíbrio e tentar compensar ou, se esta situação tender a piorar, no limite, procurar ajuda. Nos dias de hoje a saúde mental deve fazer parte da nossa agenda e as instituições devem pensar na sua estratégia em matéria de Pessoas incluindo a tão importante saúde mental.

A maioria de nós não dispõe de suporte ou ferramentas orientadas à saúde mental, o que influencia as Pessoas, causa o seu afastamento e pode levar à ausência de motivação trazendo uma sensação de inércia profissional sem esquecer que o clima organizacional ele próprio impacta na saúde mental das suas Pessoas. E algumas dessas Pessoas são, inevitavelmente, os líderes das nossas organizações. Daí a sua determinante importância em se manterem saudáveis.

Afinal de contas, quantos de nós contacta as suas Pessoas para saber simplesmente como estão quando se encontram em “casa”, por vezes, durante meses? Ou quantos de nós faz periodicamente reuniões, mais ou menos formais, para perceber apenas como podemos ajudar as nossas Pessoas a que se sintam melhor no seu local de trabalho?

Segundo Patrick Lencioni, no  livro “The Five Disfunctions of a Team“, existem cinco aspetos (os quais denomina de “disfunções”) que levam uma equipa e, consequentemente, as lideranças, a enfrentar desafios: Falta de Confiança, Medo de Conflitos, Falta de Comprometimento, Evitar Responsabilizar e Falta de Atenção aos Resultados. Eu acrescento dois ingredientes essenciais: empatia e paixão.

Todos nós conheceremos Pessoas em lugares de liderança, com currículos repletos de formações reconhecidas e experiência profissional invejável, mas que não serão suficientes para fazer emergir uma liderança inspiradora. Na maioria dessas Pessoas eu tenho sentido falta precisamente de empatia e paixão. Pelos projetos, pelas outras Pessoas, pelo que fazem no dia-a-dia. E nunca é demais lembrar que, tal como numa relação entre um casal, a paixão é precisamente aquilo que nos mantém “lá” quando algo falha ou corre menos bem. E no trabalho é mais que certo, algo vai inevitavelmente falhar ou correr menos bem. Vezes e vezes repetidamente.

E teremos de ter uma grande coragem e segurança psicológica para aceitar e aprender a liderar com humildade pessoas que vão saber sempre muito mais do que nós próprios sobre muitíssimos temas, e que terão necessidades e pensamentos diferentes. Muitas vezes gestos tão simples como apenas perguntar “Em que posso ajudar?” fazem, estou certa, toda a diferença.

Obviamente que o nosso investimento pessoal no conhecimento do estado-de-arte da nossa área de negócio é fundamental para esta liderança. Mais uma vez, como poderemos inspirar toda uma organização se não conhecemos as tendências mais recentes, se não procuramos incansavelmente os melhores exemplos que os outros “de fora” nos terão para oferecer?

Quem me conhece sabe. Os afetos, os carinhos, os abraços, a partilha, contam e muito. O “em que posso ajudar?” em cada telefonema ou reunião em que somos à ação faz parte da minha rotina genuína.

Um líder deve ter a capacidade de motivar as suas pessoas de forma positiva e de conseguir apresentar o clima organizacional da sua instituição com objetivo de proporcionar experiências positivas com base em aspetos motivacionais, evitando assim o absenteísmo, incentivando o desenvolvimento pessoal para que com resiliência e motivação possa exercer a sua função sem que desenvolva síndromes e/ou traumas psicológicos. Estarão as nossas organizações a investir nestas áreas de suporte emocional e de saúde mental? Na promoção da qualidade de vida das suas Pessoas? A segurança psicológica vinda da parte das nossas lideranças é o ingrediente chave para a felicidade no trabalho. E essa segurança psicológica só se mantém no tempo se os líderes também eles procurarem manter-se saudáveis. Nem que para isso, precisem de recorrer esporadicamente, eles próprios a ajuda.

E 2022 colocou todos estes temas na ordem do dia. Apostamos na avaliação interna no âmbito de ambientes de trabalho saudáveis, apoiamos o desenvolvimento de skills de lideranças saudáveis e felizes às nossas chefias (sem estes líderes saudáveis e felizes esta mudança cultural dificilmente acontecerá dentro das nossas Organizações) , seja como ações de formação, coaching, ou apenas estratégias de role-modeling, e criamos condições que facilitem e libertem tempo dos nos colaboradores para essa conciliação trabalho-família-vida pessoal como a submissão de  uma candidatura a um projeto piloto de trabalho híbrido ou o desenho na APP do nosso hospital da possibilidade de aquisição de refeições em regime takeaway. A disponibilização em breve da creche, acreditamos, também será uma grande mais-valia.

Neste seguimento, para este Natal pedi “apenas” dois desejos: a criação de um banco solidário digno e a disponibilização de consultas de psicologia para as nossas Pessoas. A inovação e a melhoria da experiência e dos cuidados prestados aos nossos doentes tem sido o meu enorme foco mas, de forma honesta, enquanto não conseguir encontrar soluções que satisfaçam as necessidades básicas das nossas Pessoas, não conseguirei descansar. Quem priva comigo diariamente sabe a quantidade de energia que tenho alocado ao seu bem-estar.

Mas 2022, foi também um ano de superação na vida pessoal, com investimento no meu doutoramento, o regresso à atividade de docência académica e publicações, a entrada dos meus dois filhos no ensino secundário e a concretização de um grande objetivo: chegar aos 40 anos com os meus dois filhos com 15 anos. Mas qual a real importância deste marco? Tendo sido uma mãe jovem para a minha geração, cedo me vi de certa forma em contraciclo para com o meu grupo de amigos: quando queriam sair à noite eu andava no meio das fraldas e nunca perdi o pensamento “Rita, quando tiveres 40 anos, os teus filhos terão 15 anos e tu ainda terás um mundo todo para abraçar pela tua frente”. Curiosamente, hoje sou eu quem quer sair à noite e são precisamente esses meus amigos que andam nas fraldas. E acreditem, sabe mesmo bem (uma pequena vendetta) dizer: “Hoje jantar. Sem crianças”.

Foi o ano em que também aprendi que nem sempre se deve dizer “sim” e que se deve ser clara na mensagem “faço, mas preciso de ajuda” ou então “ajudo no que puder – mas não acarretando problemas ou culpa de algo que não é necessariamente da minha responsabilidade.” Aprendi que existe um banco de horas para nós próprios, e que o meu claramente estava com um saldo no limite do negativo, contra mim própria. Aprendi que são centenas as decisões (grandes ou pequenas que tomamos diariamente e que nos vão pesando a mochila). Consegui revisitar o passado e recriar hábitos que me trazem equilíbrio, escrever, correr pela manhã, ouvir música no carro por minha livre seleção (e não as rádios comerciais sempre interrompidas por publicidade, informação ou desinformação mas que não nos permite relaxar). Fiz as viagens há muito prometidas com os meus filhos, como Nova Iorque ou Londres e os maravilhoso sunset na companhia dos seus amigos e com quem tanto me diverti. Sim, não escondo como Mãe, a adolescência é uma fase exigente para nós mas ao mesmo tempo maravilhosa. Poder estar simplesmente a jantar e a interagir sobre temas complexos em comum, tem sido outro dos meus aprendizados. E aprendi a pensar antes de reagir a coisas simples, como um “deixei a porta-moedas no autocarro, mãe, desculpa”. Lema de 2022 na matéria: “sorrir e acenar” (para os fãs do filme de animação  Madagáscar).

Foi um ano de jantar e ficar fora sozinha (se necessário) sem remorsos ou preocupações para os que ficam, e ser surpreendida com o meu telefonema às 07:15 para os meus filhos (obviamente para garantir que tudo estava bem) sendo confrontada do outro lado pelo Ricardo, que nem me deixou falar: “sim Mãe, já estamos a pé a caminho do autocarro. E não Mãe, não sei porque estás a telefonar” (a ironia foi óbvia). E dar por mim a pensar, a mudança em mim própria tinha mesmo de acontecer. No final, temos de aprender a não ser tão exigentes connosco próprios e acreditar que fomos capazes de fazer os outros que nos rodeiam crescer. E que tudo isto contribui para o nosso equilíbrio, e para nos manter saudáveis.

Deixo aqui a minha humilde e curta mensagem para 2023, como aliás escrevi no início:

Quando tudo na vida das nossas Pessoas falha, a nossa liderança saudável não pode falhar!