Integridade em Ação: Isa Pinto Pereira e a nova geração de liderança ética que está a transformar as organizações

Isa Pinto Pereira JURISTA, RESPONSÁVEL PELA FUNÇÃO DE CONFORMIDADE ANTICORRUPÇÃO, DOCENTE DO ENSINO SUPERIOR, DOUTORANDA EM DIREITO – ESPECIALIZAÇÃO DIREITO CIVIL

Numa altura em que a confiança nas instituições é frágil e a exigência regulatória cresce, a integridade tornou-se mais do que um imperativo legal, tornou-se um imperativo cultural. É neste contexto que se destaca Isa Pinto Pereira, jurista, Responsável pela Função de Conformidade Anticorrupção, docente do ensino superior e doutoranda em Direito. Com uma visão que alia rigor técnico, consciência ética e uma profunda compreensão do comportamento humano, Isa representa uma nova geração de líderes que não se limitam a cumprir normas: constroem culturas. E fazem-no com coragem, clareza e propósito.

Há profissionais que conhecem a lei. Há profissionais que conhecem as organizações. E depois há profissionais como Isa Pinto Pereira, que conhecem profundamente as pessoas. E é precisamente por isso que conseguem transformar sistemas. Ao longo da conversa, torna-se evidente que a sua abordagem ao compliance não é burocrática, nem meramente técnica: é humana, estratégica e orientada para o impacto.

Logo no início da entrevista, Isa sintetiza o grande desafio do setor: “O maior desafio consiste em compreender que o cumprimento normativo e o combate à corrupção não se esgotam na criação de normas, códigos de conduta ou de ética, nem na definição de procedimentos formais.” A sua convicção é clara: a integridade não nasce de documentos, nasce de comportamentos. E comportamentos constroem-se com cultura, liderança e consciência.

A prevenção, para Isa, é a chave. “Num contexto em que o combate à corrupção assume um lugar central na agenda política e institucional, a prevenção continua a afirmar-se como a abordagem mais eficaz.” É por isso que a Norma ISO 37001 assume um papel tão relevante no seu trabalho.

Não como um selo, mas como um referencial de maturidade. “A ISO 37001 aplica-se a qualquer organização, independentemente da sua dimensão ou setor de atividade, permitindo reforçar a reputação institucional, consolidar uma cultura de integridade e assegurar o cumprimento das exigências legais e normativas.”

A sua visão é pragmática e, ao mesmo tempo, profundamente ética. Para Isa, a corrupção não é apenas um problema legal – é um problema estrutural que distorce mercados, fragiliza relações e compromete a confiança. “Persistem ainda perceções erradas de que determinadas práticas ilícitas podem gerar vantagens imediatas; a experiência demonstra, porém, que a corrupção é incompatível com a qualidade, a inovação e a competitividade sustentada.”

É neste ponto que a sua liderança se revela: firme, consciente e orientada para o longo prazo. “O impacto mais relevante da norma reside na sua capacidade de promover decisões mais transparentes, reforçar os mecanismos de controlo interno e disseminar uma cultura de ética e integridade.”

A líder que comunica para transformar

Uma das dimensões mais marcantes do percurso de Isa é a sua capacidade de comunicar temas complexos de forma acessível. “O rigor técnico deve caminhar lado a lado com uma comunicação clara, pedagógica e orientada para a ação.” Esta frase poderia ser um manifesto para qualquer profissional de compliance, mas no caso de Isa é uma prática diária.

A sua função, explica, não se limita a garantir que as normas são cumpridas. “Mais do que garantir o cumprimento de requisitos formais, esta função implica influenciar comportamentos, orientar decisões e promover uma visão partilhada de responsabilidade e transparência.” É aqui que se percebe a força da sua liderança: Isa não fiscaliza, capacita. Não vigia, educa. Não impõe, inspira.

A sua experiência como docente reforça esta dimensão. “A investigação científic proporciona-me a profundidade conceptual necessária para compreender os desafios éticos e regulatórios e a atividade de docente reforça a capacidade de comunicar, e de permanecer em constante aprendizagem.” Para Isa, ensinar é também aprender – e é também formar líderes conscientes.

Liderança feminina num território exigente

O compliance, a governação e a regulação são áreas tradicional- mente marcadas por exigência técnica e, muitas vezes, por ambientes pouco inclusivos. Isa reconhece-o com lucidez: “Em áreas técnicas e regulatórias, os desafios enfrentados pelas mulheres raramente são explícitos. Manifestam-se, sobretudo, através de expectativas diferenciadas, maior escrutínio e uma exigência acrescida de validação permanente.”

Mas a sua reflexão vai mais longe – e toca num ponto sensível e realista: “A minha perceção, para a menor presença de mulheres em lugares de liderança, é o facto de muitas vezes, quando con- frontadas com a possibilidade de os ocupar, optarmos por ‘passar a vez’. Não por falta de compe- tência ou ambição, mas porque somos mais exigentes connosco próprias.”

É uma análise honesta, que revela tanto a sua experiência como a sua coragem. E é também um convite à ação: “Para que mais mulheres assumam cargos de responsabilidade, é essencial promover ambientes organizacionais que valorizem o mérito, incentivem a diversidade de perspetivas e reconheçam que liderar não significa replicar modelos existentes, mas acrescentar valor.”

O futuro do compliance: ética digital, IA e novas fronteiras

Quando questionada sobre os temas mais urgentes para o futuro, Isa não hesita: “O futuro do compliance coloca desafios que vão muito além do cumprimento normativo, exigindo uma abordagem integrada que articule pessoas, ética e tecnologia.”

A transformação digital, explica, trouxe novos riscos e novas responsabilidades. “A ética digital, a utilização responsável de dados e o impacto de tecnologias como a inteligência artificial assumem um papel fundamental, criando novos riscos que exigem modelos de governação mais robustos e transparentes.”

Mas, mais uma vez, Isa regressa ao essencial: as pessoas. “A capacitação das pessoas continua a ser um dos temas mais iminentes, garantindo que sabem reconhecer riscos, resistir a pressões indevidas e agir de forma responsável.”

Uma mensagem final para as mulheres que querem liderar

A entrevista termina com uma mensagem que é, ao mesmo tempo, um conselho e um manifesto: “Que nunca tenham receio de sair da sua zona de conforto. O crescimento acontece quando apostamos em nós próprias, reco- nhecemos o nosso valor e aquilo que somos capazes de oferecer às organizações e às pessoas.” E conclui com uma visão inspiradora: “As áreas jurídicas, regulatórias e de compliance oferecem um espaço real de influência e de transformação. Estes espaços pertencem-vos também. Liderar com integridade é liderar com impacto.