
Numa região onde a paisagem se divide entre um litoral vibrante e um interior que guarda desafios e potencialidades, Maria de Lurdes Serpa Carvalho conduz uma visão que liga estratégia, sustentabilidade e pessoas, defendendo que “competência e visão estratégica não têm género” e que o verdadeiro desenvolvimento nasce da proximidade ao território e da capacidade de construir soluções em conjunto.
O Algarve é um território feito de equilíbrios delicados entre pressões antigas e oportunidades emergentes, entre a força económica do litoral e a vulnerabilidade persistente do interior, entre a dependência de um turismo sazonal e a necessidade urgente de diversificar a base económica, e é precisamente neste contexto que a Diretora da Unidade de Planeamento e Desenvolvimento Regional da CCDR Algarve afirma que “a CCDR tem como missão definir e executar estratégias de desenvolvimento regional articulando políticas públicas em domínios chave para garantir coerência das intervenções no território”, sublinhando que o desenvolvimento só é sustentável quando o território é pensado como um sistema vivo e interdependente, exigindo visão integrada, articulação institucional e capacidade de antecipar riscos e oportunidades.
A Unidade que dirige assume um papel central neste processo estratégico, estruturando planos regionais, agendas temáticas e estratégias de especialização inteligente, reforçando parcerias e acompanhando programas financiados por fundos nacionais e europeus, sempre com foco na coesão territorial e na sustentabilidade, e como refere a própria, “esta área foi reorganizada precisamente para responder melhor aos desafios regionais e reforçar a coordenação e articulação de serviços na região”, integrando metas de neutralidade carbónica, eficiência de recursos e adaptação às alterações climáticas e promovendo inovação, diversificação económica e valorização dos recursos endógenos, numa lógica que une autarquias, universidades, empresas e sociedade civil num esforço articulado e contínuo.
Os desafios do Algarve são conhecidos mas cada vez mais urgentes, e por isso a Diretora identifica quatro grandes prioridades para um desenvolvimento mais coeso e resiliente, começando pela água e pela adaptação climática, dimensões onde o território já sente impactos severos, seguindo pela diversificação económica e inovação que motivou o lançamento do projeto Diversificar em 2023, e que inclui fileiras agrícolas, produtos do mar, economia azul e verde, tecnologias digitais, indústrias criativas, saúde e bem-estar, e energias renováveis, avançando para a coesão litoral interior que exige reforço dos serviços públicos, mobilidade eficiente, conectividade digital e valorização de recursos locais, e culminando nas políticas para as pessoas e qualificações, essenciais para atrair jovens, fixar talento e reduzir desigualdades, e como sublinha, é essencial “requalificar trabalhadores em setores expostos a choques reforçando competências digitais, verdes e de gestão”.
A construção de um verdadeiro ecossistema de colaboração territorial exige muito mais do que processos formais e Maria de Lurdes Serpa Carvalho reconhece que a chave está na cocriação, afirmando que “um verdadeiro ecossistema de colaboração constrói‑se como uma rede estável de atores públicos privados e sociedade civil que partilham visão dados recursos e responsabilidade sobre resultados no território”, e acrescenta que esta colaboração só ganha eficácia com participação ativa, conhecimento da realidade local e presença no terreno, reforçando a confiança na administração pública e aproximando decisões das necessidades concretas das comunidades.
A transição climática e digital abre oportunidades decisivas para a região mas expõe simultaneamente vulnerabilidades profundas, da água à dependência do turismo e às desigualdades de competências, e foi para responder a estas transformações que liderou o projeto RIA Região Inteligente Algarve, onde procurou “capacitar agentes para a digitalização da região promovendo reflexão sobre infraestruturas de dados e o uso dos dados”, processo que já acompanha o crescimento expressivo de empresas TIC e a afirmação de setores de média e alta tecnologia que se tornam novos pilares da economia regional, ao mesmo tempo que iniciativas de eficiência energética, valorização de águas residuais, biotecnologia e economia azul reforçam um posicionamento alinhado com modelos sustentáveis e com as potencialidades do território
Liderar no setor público é um exercício exigente que combina técnica, ética e sensibilidade política e a entrevistada reconhece que esta liderança implica “um forte sentido de responsabilidade e transparência, capacidade de explicar decisões, assumir erros e corrigir rumos”, acrescentando que uma direção intermédia vive da proximidade, da empatia, da comunicação clara e da capacidade de motivar equipas, num contexto onde resultados, metas e monitorização são presença diária e onde a resiliência é uma competência essencial para navegar incertezas e mudanças de contexto.
Sobre o percurso enquanto mulher líder em áreas técnicas e estratégicas, a Diretora sublinha que começou pela conservação da natureza e que cedo percebeu “a importância da presença no território, de ouvir, conhecer in loco os problemas e construir soluções com todos”, e destaca que a sua mais‑valia no planeamento regional foi integrar sustentabilidade, equidade territorial, participação cidadã e impacto social dos projetos, defendendo que competência e visão estratégica não têm género e que as melhores soluções nascem do equilíbrio entre conhecimento técnico e valorização do saber local.
A participação cidadã ocupa hoje um lugar central na ação pública da CCDR Algarve e, como explica, “a voz das comunidades é integrada através de processos formais de participação pública, trabalho em rede e mecanismos contínuos de diálogo”, sendo que os documentos estratégicos são cocriados desde a fase inicial, envolvendo parceiros, atores regionais, sistema científico e tecnológico, empresas e organizações da sociedade civil, num modelo que reforça a qualidade das decisões e a consistência dos resultados.
Ao olhar para os próximos anos, Maria de Lurdes Serpa Carvalho partilha a sua ambição para o território, desejando “um Algarve inteligente, mais diversificado, inovador e resiliente”, com um ecossistema de inovação forte, investimento ao nível dos padrões europeus, consolidação da biotecnologia e da economia azul e verde e capacidades reforçadas na área da saúde, contribuindo para um território mais equilibrado, sustentável e com qualidade de vida, deixando como legado a construção de uma visão partilhada e de instrumentos robustos que preparem o Algarve para o futuro.




