Liderar com propósito: desafios, aprendizagens e visão para o futuro

Tania Gaspar PSICÓLOGA, PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DIRETORA DO SERVIÇO DE PSICOLOGIA, INOVAÇÃO E CONHECIMENTO (SPIC) UNIVERSIDADE LUSÓFONA COORDENADORA NACIONAL E DOS PAÍSES MEDITERRÂNEOS DO HEALTH BEHAVIOUR SCHOOL-AGED CHILDREN/ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE

O ano de 2025 marcou um ponto de viragem particularmente significativo no meu percurso profissional e pessoal. Não porque tenha sido um ano de chegada, mas porque foi, sobretudo, um ano de início.

Início de novas responsabilidades, de novos espaços de decisão, de novas exigências éticas e científicas, e também de uma renovada consciência sobre o significado de liderar em contextos complexos, incertos e profundamente humanos.

Assumir, em 2025, funções de coordenação e representação em estruturas nacionais e internacionais, nomeadamente ligadas à Organização Mundial da Saúde, da Comissão Europeia, da OCDE, de comissões de ética e de fundações com impacto direto na saúde e no bem-estar das populações, trouxe consigo desafios acrescidos, mas também oportunidades raras de alinhar conhecimento científico, política pública e ação concreta. Liderar, neste contexto, passou a significar mais do que dirigir equipas ou projetos: passou a significar criar pontes, escutar ativamente e tomar decisões informadas por evidência, mas também por valores.

Um dos maiores desafios de 2025 foi, sem dúvida, a integração de múltiplos papéis. Como professora universitária, investigadora, psicóloga clínica, dirigente associativa e consultora em diferentes fóruns estratégicos, senti de forma muito clara a tensão entre o tempo, a exigência e a responsabilidade. A liderança no feminino, nestes contextos, continua a ser exercida sob um escrutínio elevado, onde a competência é frequentemente acompanhada da expectativa de disponibilidade permanente. Aprendi, ao longo deste ano, que liderar de forma sustentável implica também saber estabelecer limites, confiar nas equipas e reconhecer que o cuidado, consigo e com os outros, é parte integrante da eficácia.

2025 foi igualmente um ano de oportunidades. A criação do Observatório Ibérico de Ambientes de Aprendizagem Saudáveis e Participação Juvenil representa uma dessas oportunidades transformadoras: a de reunir conhecimento, monitorizar realidades emergentes e influenciar políticas e práticas que promovam ambientes mais saudáveis, inclusivos e participativos para crianças, jovens e profissionais. No mesmo sentido, os relatórios e iniciativas desenvolvidos no âmbito do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis reforçaram a convicção de que o bem-estar no trabalho não é um luxo, mas uma condição estrutural para a sustentabilidade das organizações e da sociedade.

No plano científico e de divulgação, 2025 foi também um ano fértil. A publicação do livro Burnout: a pandemia do século XXI, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, constituiu um momento particularmente relevante, ao permitir levar para fora da academia uma reflexão baseada em evidência científica, mas acessível, sobre um fenómeno que afeta milhares de pessoas e organizações. A produção contínua de artigos científicos, a participação em eventos nacionais e internacionais e o diálogo com decisores políticos reforçaram a importância de uma ciência comprometida com o impacto social.

Como Serviço de Psicologia, Inovação e Conhecimento (SPIC) que dirijo da Universidade Lusófona em Lisboa, ao abrigo de um programa de apoio da Direção- Geral do Ensino Superior afirmou-se como uma estrutura estratégica de apoio psicológico, inovação e promoção do bem-estar junto de estudantes, docentes, pessoal não docente e comunidade externa, em estreita articulação com diferentes serviços e unidades da Universidade e da COFAC. Os dados recolhidos revelaram ambientes globalmente positivos, mas também desafios significativos, como níveis relevantes de burnout, fadiga e exposição a situações de abuso psicológico, tanto entre estudantes como entre profissionais. Estes resultados permitiram definir prioridades claras de intervenção, nomeadamente na promoção da saúde mental, na prevenção do burnout, no reforço da liderança justa e da segurança psicológica, na melhoria das condições organizacionais e na valorização da participação e da comunicação interna. A relevância deste trabalho reside não apenas no diagnóstico, mas na sua tradução em ação estruturada, baseada em evidência, com impacto direto na qualidade de vida académica e laboral. Liderar o SPIC em 2025 foi, assim, um exercício concreto de liderança com propósito, onde a ciência se colocou ao serviço das pessoas e das organizações.

No contexto atual a publicação do livro Burnout: a pandemia do século XXI, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, constituiu um momento particularmente relevante, ao permitir levar para fora da academia uma reflexão baseada em evidência científica, mas acessível, sobre um fenómeno que afeta milhares de pessoas e organizações. A produção contínua de artigos científicos, a participação em eventos nacionais e internacionais e o diálogo com decisores políticos reforçaram a importância de uma ciência comprometida com o impacto social.

O sucesso de 2025 não se mede apenas pelos cargos assumidos ou pelos projetos iniciados, mas pela capacidade de manter coerência entre visão, ação e valores. Ter iniciado funções como Coordenadora do Policy Development Group do estudo HBSC/OMS, integrar a Comissão de Ética para a Investigação Clínica (CEIC)/INFARMED/Ministério da Saúde, a Direção da Fundação AstraZeneca e grupos de peritos europeus e internacionais foi, acima de tudo, uma oportunidade para contribuir de forma ativa para sistemas mais justos, éticos e centrados nas pessoas.

Neste mesmo ano, integrei o Grupo de Trabalho de Saúde Mental e Bem-Estar do Plano Nacional de Saúde Escolar da Direção-Geral da Saúde, contribuí como especialista para o documento “Caminhos de Consenso para a Saúde em Portugal”, do Conselho Nacional de Saúde, e assumi funções nos órgãos sociais da Ordem dos Psicólogos Portugueses, reforçando a articulação entre ciência, prática profissional e políticas públicas. Tem-se revelado um exercício contínuo de humildade, aprendizagem e responsabilidade. Ainda em 2025, integrei a G100 Portugal, Work-life Harmony Wing, como Advisory Member, no âmbito da Mission Million, uma iniciativa internacional dedicada à promoção do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, liderada em Portugal por Rita Veloso. Esta integração reforçou a minha convicção de que a liderança contemporânea deve assumir, de forma explícita, a conciliação entre desempenho, saúde mental e qualidade de vida como um eixo estratégico e não apenas como um tema periférico.

Ao olhar para 2026, faço-o com sentido de propósito e com uma ambição serena. Um dos marcos mais significativos será o desenvolvimento do estudo sobre Ambientes de Trabalho Saudáveis para Doentes Oncológicos, distinguido com um prémio “Excelência em Investigação” da Universidade Lusófona. Este projeto simboliza aquilo em que acredito profundamente: investigação aplicada, sensível à vulnerabilidade, capaz de transformar contextos de trabalho em espaços de dignidade, inclusão e esperança. 2026 será igualmente o ano de implementação de dois projetos Horizon Europe financiados pela Comissão Europeia, nos quais assumo a responsabilidade de Investigadora Principal institucional para Portugal: o Futourwork, dedicado ao futuro do trabalho, à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores do sector do turismo e hospitalidade, especialmente os em maior risco, tais como mulheres, migrantes e com menor escolaridade e o Engaged Youth, centrado na participação juvenil e no envolvimento cívico tão fundamental nos tempos atuais. Estes projetos representam não apenas reconhecimento internacional, mas também um compromisso acrescido com a construção de conhecimento colaborativo, transnacional e orientado para a mudança.

Ao longo deste percurso, a relação entre trabalho e vida pessoal tem-se tornado cada vez mais central na forma como penso e exerço a liderança. Procuro, de forma consciente e imperfeita, concretizar aquilo que conceptualizei no livro Burnout: a pandemia do século XXI como o modelo dos quatro pilares da vida. A maturidade traz-me hoje maior clareza sobre prioridades e uma confiança diferente para proteger aquilo que é essencial. Na prática, isso traduz-se em cuidar do self, através do autoconhecimento e da atenção à saúde mental; em investir de forma deliberada na vida familiar, nos afetos e no tempo de qualidade, com a consciência de que acompanhar o crescimento dos meus filhos, vê-los tornarem-se autónomos, felizes e capazes de enfrentar os seus próprios desafios , incluindo a entrada de um deles na universidade em 2025, é um dos referenciais mais sólidos para relativizar urgências e recentrar prioridade, sem valorizar o trabalho como espaço de significado, mas não como único eixo identitário; e em preservar o pilar social e do lazer, seja através do desporto, do convívio com amigos e colegas, ou das viagens profissionais que procuro transformar em oportunidades de contacto com culturas, países e formas diversas de viver e trabalhar. Este equilíbrio dinâmico não elimina o stress ou a exigência, mas funciona como fator protetor e como âncora em momentos de maior complexidade.

Se 2025 foi o ano de iniciar projetos e missões, 2026 será o ano de consolidar. Consolidar equipas, aprofundar impacto, reforçar a ligação entre ciência, políticas públicas e práticas institucionais. Continuar a investir numa liderança que não se confunde com poder, mas que se afirma pela responsabilidade, pela escuta e pela capacidade de inspirar sem impor.

Acredito que a liderança no feminino tem hoje a oportunidade, e talvez o dever, de contribuir para modelos mais humanos, mais éticos e mais sustentáveis. Não porque sejam lideranças perfeitas, mas porque são lideranças conscientes da complexidade do mundo em que vivemos.

Nada disto seria possível sem as equipas com quem trabalho diariamente. Quero deixar um agradecimento claro e sentido a todas e a cada uma das pessoas com quem tenho o privilégio de colaborar, às que lidero e às que me lideram. Acredito profundamente em relações profissionais assentes na confiança, na autonomia e na responsabilidade partilhada. São estas relações, construídas ao longo do tempo, que tornam possível transformar ideias em projetos, projetos em impacto e desafios em oportunidades de crescimento coletivo. É com essa consciência, e com um compromisso contínuo com o bem comum, que encaro os desafios e as possibilidades de 2026.