INTERNACIONALIZAÇÃO E DETERMINAÇÃO SÃO ELEMENTOS DE SUCESSO NA LIDERANÇA

“Ter a possibilidade de regressar às minhas origens com um projeto diferenciador motivava-me, pois sabia que de alguma forma iria contribuir para o desenvolvimento da nação mais jovem do mundo”, afirma Berta Montalvão, fundadora da FORSAE, em entrevista à Revista Liderança no Feminino.

PORQUÊ UMA CARREIRA INTERNACIONAL?

Desde cedo ambicionei ter uma carreira internacional. À medida que fui crescendo, este sonho foi ganhando contornos de realidade, equanto mais viajava mais vontade tinha de arriscar e sair de Portugal. Sempre que ponderava sobre esta possibilidade, imaginava-me a viver numa cidade como Londres ou Nova Iorque. Adorava a ideia de poder estudar e trabalhar em grandes cidades e empresas de topo. No fundo, a minha vontade de viver fora sempre esteve relacionada com a possibilidade de aprender mais e em outros contextos,diferentes daqueles que já conhecia.

O QUE MOTIVOU UMA RECÉM-LICENCIADA, DE 24 ANOS DE IDADE, ACEITAR O DESAFIO DE IR TRABALHAR PARA ANGOLA?

Após concluir a minha licenciatura em Lisboa, tive a oportunidade de abraçar um desafio  profissional em Luanda. Apesar de nunca ter ponderado sobre a ideia de viver em África, desde logo soube que este seria o caminho que deveria seguir para alcançar o meu objetivo. Havia a necessidade de reforçar a equipa em Luanda e eu tinha sido a pessoa escolhida. O projeto em si era bastante exigente, desafiante e com visibilidade em Angola. Isso atraiu-me desde o primeiro momento. Senti que era um enorme voto de confiança que me estava a ser dado, e por isso, não fazia sentido recusar esta oportunidade. Sabia também que este desafio poderia ser um “trampolim” para a minha carreira, uma vez que ia ter uma função de maior complexidade e responsabilidade. Em Portugal estava a trabalhar na área da Formação e este convite dava-me a possibilidade de diversificar a minha experiência e ingressar na Consultoria de Recursos Humanos, área em que quis sempre trabalhar. Sabia perfeitamente que levaria anos para ter uma oportunidade destas em Portugal, uma vez que ainda estava a ocupar uma função Júnior. Sempre fui aventureira e, por isso, Angola fazia todo o sentido. Sem dúvida que foi uma das melhores decisões da minha vida.

A ÁREA DA CONSULTORIA ESTEVE SEMPRE PRESENTE NO SEU PERCURSO PROFISSIONAL. QUAIS OS SETORES EM QUE SENTIU MAIOR DESAFIO?

Esta minha relação com a consultoria vem desde o tempo da universidade e por influência de alguns professores, mas foi em Angola que dei os primeiros passos. Tive a sorte de trabalhar com uma equipa que me apoiou e ensinou desde o primeiro momento. Dos 13 anos que vivi em Luanda, 10 foram dedicados à Consultoria de Gestão de Recursos Humanos, em ambiente multinacional. Após de uma década a trabalhar neste ramo achei que estava na hora de ter uma experiência fora da consultoria e aceitei o desafio de iniciar um projeto de raiz. Assim, durante 3 anos assumi a liderança de uma Direção de Recursos Humanos e a posição de Executive Board Member numa empresa de retalho com 1.500 trabalhadores.Trabalhar na área da Consultoria num momento de pós-guerra foi de facto um privilégio,uma vez que tive a oportunidade para contribuir para a reconstrução do país. Estando a viver num país em que tudo estava por fazer, as oportunidades de trabalho eram imensas, e acabei por me dedicar e estar mais ligada ao
setor petrolífero, financeiro, transportes, telecomunicações e construção. Existia um grande défice de recursos qualificados, pelo que a formação dos quadros Angolanos e o suporte à gestão de topo das empresas Angolanas era uma necessidade constante e real. De todas as minhas experiências, o setor petrolífero foi o que revelou ser mais complexo e exigente, pelo que considero ser este o meu maior desafio setorial. Trabalhar no setor petrolífero obrigou-me a aprender tudo sobre o negócio de A a Z. Lia imenso sobre o setor dos petróleos para perceber toda a cadeia de valor, desde o processo de prospeção até à produção, para além de assimilar os conceitos técnicos. Tive a possibilidade de trabalhar com grandes operadoras como a BP, a Total, a Eni, a Chevron e a Sonangol. De entre os vários projetos que realizei para estas empresas, recordo-me, por exemplo, do meu primeiro processo de recrutamento em volume que desenvolvi para a BP e que me obrigou a viajar por 10 províncias de Angola durante 2 meses, pois foram milhares as candidaturas recebidas. Recordo-me também do desafio que foi implementar de raiz um processo de recrutamento de 1000 trabalhadores para a maior fábrica de LNG, em África, numa zona remota do país, com condições muito limitadas e precárias. Outra experiência que o setor petrolífero me proporcionou foi trabalhar numa plataforma petrolífera (offshore) e numa base petrolífera (onshore). O setor petrolífero foi também o mais exigente com o qual trabalhei enquanto Consultora. Não podemos esquecer que para trabalhar neste setor, para além do conhecimento técnico, é preciso estar a par de todas as regras de segurança inerentes ao negócio. Até neste campo tive de aprender muitas regras e procedimentos para poder realizar projetos aos clientes. O mundo dos petróleos é, de facto, uma realidade muito específica e singular.Um outro setor com o qual trabalhei e também foi um grande desafio, foi o setor do retalho alimentar e não alimentar. Ter a oportunidade de participar na criação de uma empresa de raiz é um momento único na vida de qualquer profissional. Aprendemos imenso, sobre tudo e sobre todas as áreas da empresa, pois está tudo por fazer. Independentemente do cargo que ocupamos só há uma forma de estar, queé hands-on e, por esse motivo, numa fase inicial, encarei este desafio também como uma “consultoria”. Poder acompanhar todas as etapas do desenho, desenvolvimento e crescimento de uma empresa é muito desafiante, e ficamos com uma visão global de todo o negócio e áreas envolvidas. Naturalmente que
o momento mais especial que recordo desta experiência é o dia 11 de Maio de 2016, data
em que abrimos a primeira loja Candando. Foi muito gratificante e um orgulho imenso vermos o resultado de um trabalho conjunto que levou 11 meses a ser construído e que contou com a dedicação de uma equipa multidisciplinar.

ATENDENDO AO FACTO DE QUE VIVEU MAIS DE UMA DÉCADA EM ANGOLA, ALGUMA VEZ TEVE VONTADE DE REGRESSAR A PORTUGAL?

Sim, tive por diversas vezes a vontade de sair de Angola. Apesar de adorar viver em Angola, por vezes sentia a limitação de viver num país em situação de pós-guerra, com inúmeras carências, limitado e que estava a ser totalmente reconstruído. Vivi em Luanda os melhores momentos da minha vida, mas ao fim de alguns anos percebi que estava a hipotecar o meu desenvolvimento e que estava a estagnar. Queria sair de Luanda, mas não coloquei a hipótese de regressar a Portugal. Achava que ainda não era tempo, e Portugal não era o que precisava naquele momento para acelerar o meu conhecimento. Por isso, em 2010, e ao fim de 5 anos a viver em Angola, tive a necessidade de voar para outras paragens. Adorava o país e o meu trabalho, mas precisava de conhecer outras realidades e rumei à Austrália, para estudar. Apesar de ter vivido em Sydney apenas 4 meses, esta experiência revelou-se muito importante, pois deu-me a oportunidade para viver novamente num país de “primeiro mundo”. Foi de facto uma lufada de ar fresco e deu-me a energia necessária para continuar a minha caminhada por Angola por mais alguns anos. Em Maio de 2018 e ao fim de 13 anos a viver em África, tomei a decisão de sair definitivamente de Angola e regressei a Portugal. Foi um fechar de ciclo, onde deixei para trás muito bons momentos, amigos, aprendizagens, experiências e desafios. Depois de vários anos a viver fora da Europa, fazia sentido explorar oportunidades de trabalho em Lisboa. Estava motivada para um novo desafio e uma nova realidade. Voltar a Portugal fazia sentido e não pensei duas vezes de que esse era o caminho que queria seguir. Regressei a Portugal sem ter a noção do que iria fazer, mas sabia que tinha o motivo, a vontade e a energia necessária para recomeçar uma nova vida na cidade que me viu nascer. Procurei oportunidades, participei em entrevistas, contactei head hunters, mas rapidamente percebi que o meu regresso ao mercado de trabalho em Lisboa não iria ser fácil e, à medida que o tempo foi passando, fui ficando cada vez mais convencida de que o meu futuro não passava por Portugal. Confesso que por momentos coloquei o meu regresso em causa, tendo mesmo questionado se tinha tomado a decisão certa de sair de Angola.

ESTÁ NA LIDERANÇA DA EMPRESA FORSAE, QUE É O SEU PROJETO MAIS RECENTE EM TIMOR-LESTE. QUAL A MISSÃO DA EMPRESA?

A FORSAE é o resultado de uma série de acontecimentos após a minha saída de Angola. Visto não estar a trabalhar, aproveitei o momento para viajar e, com isso, descansar, reorganizar ideias, definir novos objetivos de vida e rumos profissionais. Viajei entre África, Europa e Ásia, e numa dessas viagens (Tailândia) surgiu a ideia de lançar o meu próprio projeto em Timor-Leste. Não tinha nada em Portugal e, mais uma vez, arriscar e sair da minha zona de conforto fazia sentido. Apesar de ser descendente de timorenses, o meu contacto com o país sempre foi muito superficial e resumia-se à gastronomia, alguns costumes e à língua. Ter a possibilidade de regressar às minhas origens com um projeto diferenciador, motivava-me, pois sabia que de alguma forma iria contribuir para o desenvolvimento da nação mais jovem do mundo. Já tinha feito algo semelhante em Angola e agora era tempo para contribuir para o meu próprio país. Pisei Timor-Leste pela primeira vez em dezembro de 2010 para alguns dias de férias. Regressei novamente em junho de 2018 para participar na maior conferência sobre liderança no feminino, designada “Mulher Forte, Nação Forte”, onde tive o prazer de participar como Oradora, a convite da Delegação da União Europeia em Timor-Leste. Na altura, falei com diversas pessoas que estavam a residir no país para perceber os desafios, as dificuldades e as limitações do tecido empresarial de Timor-Leste. À medida que fui tendo uma ideia mais concreta sobre a realidade do país, mais vontade tinha em ajudar no desenvolvimento de Timor-Leste. Nunca ambicionei ser empresária, contudo, sentia-me motivada com esta possibilidade. Não sabia ao certo o que queria fazer, ou como iria fazer, mas claramente sabia que queria apoiar no que fosse necessário, apesar das dúvidas e do receio em dar este passo. Felizmente tive a melhor equipa de estratégia e branding para me orientar e encontrar um rumo – a Zenki Group e a BUS – Creative Agency. Em conjunto, definimos a missão da empresa, a estratégia de entrada no mercado, a marca, a identidade, o plano de comunicação e o evento de lançamento. Em apenas 5 semanas tinha tudo pronto e aterrava em Díli para um novo desafio, agora sozinha. Assim nasceu a FORSAE, em outubro de 2018, com a missão de promover o desenvolvimento organizacional, o capital humano e a comunicação empresarial, em Timor-Leste, de forma a contribuir para o crescimento da economia e o desenvolvimento nacional. Ou seja, a FORSAE dedica-se à implementação de projetos de consultoria na área da Gestão de Recursos Humanos e Comunicação.

COMO AVALIA ESTA SUA NOVA EXPERIÊNCIA?

Passaram-se 8 meses desde o início deste novo capítulo da minha vida, e após o período  normal de adaptação aos hábitos e rotinas, sinto-me totalmente em casa e adaptada à minha nova cidade. Vivo numa ilha pequena, multicultural e de hábitos simples. Conheço pessoas novas todos os dias e lido frequentemente com pessoas de diferentes nacionalidades. Tenho desafios diariamente e isso motiva-me e dá-me energia para acreditar que tomei a decisão certa. Pela primeira vez estou a trabalhar num projeto meu e isso tem sido uma grande novidade para mim. Ainda tenho um caminho longo a percorrer como Gestora de um negócio próprio, mas tenho desenvolvido outras valências pessoais e profissionais. A FORSAE permite-me gerir melhor o meu tempo e estar mais dedicada às coisas que realmente gosto de fazer. Tenho mais tempo para mim e para as minhas pessoas. Reorganizei as minhas prioridades, mudei o meu estilo de vida e isso deixa-me feliz.

QUE CONSELHOS DÁ A TODOS AQUELES QUE PRETENDEM ABRAÇAR UMA CARREIRA INTERNACIONAL?

Se possível, acho que todas as pessoas deveriam ter, pelo menos, uma experiência internacional na vida. As experiências internacionais, para além de contribuírem para o nosso desenvolvimento profissional, contribuem essencialmente para o nosso crescimento pessoal e relacional. É muito gratificante e enriquecedor podermos partilhar e assimilar novas culturas e hábitos. Tornamo-nos pessoas culturalmente mais ricas e com uma visão do mundo diferente e mais ampla. Nem sempre é fácil dar este passo, pois temos de sair da nossa zona de conforto e estar longe daqueles que mais gostamos. É sempre difícil chegar a um país que não conhecemos, com rotinas e costumes muito próprios. Os primeiros tempos são sempre mais complicados e questionamo-nos inúmeras vezes sobre as coisas e as pessoas que deixámos para trás. Mas é preciso saber gerir as emoções para que possamos absorver o país que nos acolhe. E quanto mais rápido assimilarmos e aceitarmos a nova realidade e as novas rotinas, mais fácil se torna a nossa integração. A todos aqueles que pretendem dar este passo nas suas vidas e abraçar projetos além fronteiras, recomendo que tenham capacidade e abertura para a mudança, curiosidade, determinação, autoconfiança e tolerância. Naturalmente que estes requisitos não são limitativos, mas ajudam na integração numa nova realidade  social e cultural.

ANALISANDO O SEU PERCURSO PROFISSIONAL, NESTES 15 ANOS, COMO SE CARACTERIZA ENQUANTO LÍDER?

Em todas as empresas pelas quais passei tive a oportunidade de trabalhar com pessoas muito diferentes. Todas elas, de uma forma geral, contribuíram para o meu crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional. Sempre acreditei que o caminho faz-se caminhando e nunca tive pressa para crescer ou ocupar um cargo de liderança. Sempre defendi que primeiro devemos consolidar os nossos conhecimentos e experiência, e só depois pensar numa posição de destaque e liderança de equipa.
A minha experiência em termos de coordenação de equipas começou na PwC, em 2009, enquanto Consultora Sénior e onde supervisionava o trabalho dos Consultores Juniores. Em 2012 fui promovida a Manager e a partir desse momento iniciei o meu percurso em posições de liderança. Esta promoção revelou ser um marco muito importante na minha carreira, pois abriu-me as portas para sonhar com a possibilidade de um dia vir a ocupar um cargo de gestão de topo. A PwC foi, de facto, uma grande escola, e até hoje tenho uma relação muito próxima com todos os elementos que eram da minha ex-equipa. A PwC é uma empresa que investe bastante nas suas pessoas e a área de liderança e gestão de equipas nunca é esquecida, havendo frequentemente formações nesse âmbito. No Candando, tive igualmente uma posição de liderança de uma equipa, a qual estava dividida em dois países: Portugal e Angola. Enquanto Líder, caracterizo-me por ser uma pessoa disponível, flexível e pragmática. Sou exigente comigo própria e com os outros, e por isso, por vezes imprimo um ritmo acelerado à equipa. Sou dedicada e procuro sempre definir o melhor caminho para que seja possível à equipa alcançar os objetivos propostos, quer seja pela gestão de topo, quer seja pela estrutura acionista. Sou uma pessoa preocupada com os resultados, com o rigor e a qualidade do trabalho que é desenvolvido pela equipa. Procuro sempre dar feedback no sentido de melhorar a performance de cada um.

O QUE RECOMENDARIA ÀS MULHERES QUE ASPIRAM A SER EMPREENDEDORAS?

Gosto muito de uma frase que foi dita pelo Nelson Mandela: “It always seems impossible until is done”. Acho que esta frase diz muito sobre o que é ser Empreendedor e as características que é preciso possuir para avançarmos para um negócio próprio. Para ser empreendedor é preciso gostar de desafios, ter coragem e, acima de tudo, ter a capacidade para sairmos da nossa zona de conforto. Temos de estar abertos para a mudança e disponíveis para atuar em áreas que desconhecemos. É igualmente importante ter visão estratégica e inspiração, pois nem sempre o caminho é fácil ou linear. É fundamental mantermos o foco e a energia para implementar aquilo que acreditamos, mesmo que pareça que estamos muito longe de conseguir alcançar os nossos os objetivos. Na minha opinião, um empreendedor destaca-se pela sua coragem, criatividade, iniciativa, autoconfiança, determinação, otimismo e resiliência.